Pesquisadores criam o primeiro banco de dados de tornados do Brasil com foco no campo
Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), conhecidos como 'caçadores de tornados', está finalizando o Observatório de Tornados do Paraná. A iniciativa pioneira visa catalogar e analisar ocorrências do fenômeno meteorológico no país, que até então não possuía uma base de dados oficial, com atenção especial aos impactos e à prevenção em áreas rurais.

Divulgação
O Brasil está prestes a ganhar seu primeiro banco de dados oficial sobre tornados. Pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), apelidados de 'caçadores de tornados' devido ao seu trabalho dedicado ao estudo desses fenômenos, estão na fase final de desenvolvimento do Observatório de Tornados do Paraná. A plataforma, cuja disponibilização é esperada para outubro, preencherá uma lacuna importante no conhecimento e monitoramento climático do país, oferecendo um recurso inédito para a comunidade científica e para a população.
Um retrato dos tornados no Brasil
Até o momento, os trabalhos desenvolvidos na UEPG já permitiram o catalogamento de 756 tornados registrados no Brasil entre 1927 e 2025. A pesquisa revelou que as áreas rurais são particularmente suscetíveis a esses eventos, dadas as suas extensões amplas e abertas. Dos tornados catalogados, 207 ocorreram exclusivamente em zonas rurais, 199 em áreas urbanas e 71 na transição entre as duas. A localização de outros 279 tornados não pôde ser precisamente determinada.
Entre os episódios mais devastadores, destaca-se o tornado que atingiu o município de Palmas, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, em 1959. Esse evento climático ceifou a vida de mais de 90 pessoas, com 35 óbitos registrados somente na Fazenda Fortaleza, ilustrando o potencial destrutivo desses fenômenos.
Impacto no campo e a importância da prevenção
Em um único ano recente, o Paraná registrou 13 tornados, e praticamente todas as ocorrências afetaram áreas rurais. A professora Karin Hornes, do Departamento de Geociências da UEPG, líder da pesquisa, explica que sua equipe visita as localidades atingidas para documentar os estragos, reunindo fotos, vídeos e depoimentos das vítimas. Um exemplo recente é o tornado que assolou Piraí do Sul (PR) em agosto, com ventos que superaram 330 km/h, resultando em um prejuízo estimado em R$ 10 milhões para produtores rurais e afetando 45 residências.
Karin lamenta as perdas enfrentadas pelos produtores, que vão desde danos à infraestrutura até a total destruição da produção. Ela enfatiza a importância de documentar essas perdas para que os afetados possam acessar recursos, auxílios e seguros. Para minimizar os efeitos de futuros tornados, os pesquisadores orientam que as propriedades rurais planejem e construam estruturas reforçadas para casas, granjas, estábulos e leiterias. A instalação de geradores em locais seguros também é crucial, pois o abastecimento de energia elétrica é frequentemente comprometido. A pesquisadora ressalta que, em áreas rurais, é vital pensar não apenas em salvar vidas humanas, mas também os animais, e sugere estruturas com porões reforçados em regiões propensas a esses eventos.
Brasil: um território vulnerável
Após as pradarias centrais da América do Norte, a América do Sul figura como a segunda região mais propícia à ocorrência de tornados no mundo. Dentro do continente, Argentina, Paraguai e o Sul do Brasil são os mais suscetíveis, com o Rio Grande do Sul liderando os registros nacionais, seguido por Paraná e Santa Catarina. Karin Hornes explica que a latitude dessas regiões favorece o encontro de massas de ar frio com ar quente e úmido, condição ideal para a formação de tempestades severas e tornados.
O observatório digital tem como meta tornar as informações sobre tornados mais acessíveis, fornecendo dados e pesquisas para a comunidade. Além disso, a iniciativa prevê atividades de extensão universitária para orientar a população. A equipe da UEPG defende a estreita colaboração entre órgãos públicos de previsão do tempo, monitoramento climático e universidades, como a parceria que mantêm com a Universidade de Oklahoma, que colabora com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA). Essa sinergia é considerada fundamental para aprofundar o entendimento dos padrões desses fenômenos e fortalecer as estratégias de prevenção e resposta.
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