Medidas de 2026 buscam conter o endividamento rural no Brasil
Inadimplência recorde, queda no preço das commodities e dificuldade de acesso ao crédito pressionam produtores rurais. Governo aposta na renegociação de dívidas e CPRs, mas especialistas alertam que o alívio depende de agilidade e da liberação de novos recursos.

Divulgação
O endividamento voltou a pressionar propriedades rurais em diferentes regiões do Brasil. A inadimplência entre produtores rurais pessoas físicas atingiu 8,8% no primeiro trimestre de 2026, patamar recorde, enquanto o passivo do setor é estimado em bilhões de reais. O cenário resulta da combinação entre quebras de safra causadas por eventos climáticos, custos de produção elevados, queda no preço internacional das commodities e juros ainda altos.
Crise vai além da perda de safra
Para Leandro Martins, produtor rural e CEO da BM Business Agro, o problema não se resume a uma frustração pontual na produção. Muitos produtores financiaram insumos em momentos de preços elevados e, na hora da comercialização, enfrentaram receitas menores. Esse descompasso entre custos inflacionados e preços mais baixos comprimiu margens e reduziu a capacidade de honrar compromissos assumidos para o custeio da lavoura.
O café foi uma exceção, com boa safra em 2025/26, mas os preços já apontam para queda e normalização na safra 2026/27. Nas demais culturas, a deterioração foi mais ampla. Produtores que administravam suas propriedades com folga financeira passaram a lidar com restrições de caixa e com a necessidade de renegociar dívidas antes mesmo de iniciar novos ciclos de plantio.
CPRs amplificam a pressão sobre os produtores
Além dos empréstimos bancários, o uso de Cédulas de Produto Rural (CPRs) contribuiu para aumentar a exposição financeira do setor. Emitidas diretamente com tradings, revendas e outras empresas, essas obrigações passaram a ser renegociadas em um contexto de inadimplência crescente. Quando o grão entregue não cobre o valor devido, o produtor perde capacidade de assumir novos compromissos e passa a enfrentar resistência para obter crédito.
O efeito aparece tanto nas carteiras voltadas a pessoas físicas quanto nas operações com pessoas jurídicas ligadas à produção primária. Com o aumento dos atrasos, instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos, reduzindo a aprovação de investimentos e de capital de giro. A restrição atinge inclusive produtores com histórico positivo e garantias reais, enquanto arrendatários enfrentam condições ainda mais severas.
Medida Provisória abre caminho para renegociação
Para conter o avanço do problema, o governo federal editou a Medida Provisória nº 1.376/2026, publicada em julho, com instrumentos destinados à repactuação de dívidas e CPRs de produtores afetados por quebras consecutivas de safra. As regras preveem condições diferenciadas conforme o porte do produtor, incluindo limites para a agricultura familiar e prazos mais longos para médios e grandes produtores.
A proposta também busca permitir a substituição de CPRs vencidas por novas emissões estruturadas e captações direcionadas. A medida representa um alento jurídico e financeiro, mas sua eficácia dependerá da capacidade dos bancos de transformar as regras em operações concretas dentro do calendário agrícola.
Renegociar o passado não resolve sem crédito novo
Leandro Martins alerta que o produtor não pode ficar preso à burocracia bancária. Se a análise das renegociações se estender por meses, o ciclo de plantio em andamento pode ser comprometido. Além disso, regularizar o nome do produtor sem permitir o acesso a novos recursos não recupera o fluxo de caixa necessário para comprar insumos, pagar serviços e manter a atividade.
Na avaliação do especialista, a principal medida de sucesso será a retomada do financiamento da operação rural. O crédito precisa chegar ao campo em tempo útil, especialmente para produtores que ainda possuem capacidade produtiva, mas perderam liquidez após duas safras difíceis.
Plano Safra e Fiagros ganham papel estratégico
O Plano Safra segue como principal instrumento de financiamento do custeio e da comercialização agrícola. Entretanto, o início do ano agrícola foi marcado por debates sobre a lentidão na equalização de juros e pela cautela dos bancos tradicionais diante de restrições cadastrais. Mesmo com recursos oficialmente disponíveis, muitos produtores enfrentam dificuldade para obter aprovação.
Os Fiagros, fundos voltados às cadeias produtivas agroindustriais, passam a ocupar espaço crescente nesse cenário. Criados com foco em aquisição de terras e financiamento direto, eles também começam a ser usados na reestruturação de ativos estressados. A atuação do mercado de capitais pode complementar o crédito público, mas não elimina a necessidade de regras ágeis e de maior previsibilidade para o produtor rural.
As medidas em discussão podem reduzir parte da pressão sobre o campo, mas ainda não significam o fim do endividamento. O resultado dependerá da velocidade das renegociações, da ampliação do crédito produtivo e da recuperação das margens agrícolas nos próximos ciclos.
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