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Equipe resgata seis botos-do-Araguaia isolados pela seca extrema no Tocantins

Animais endêmicos da bacia Tocantins-Araguaia estavam presos em poças isoladas, com risco de desidratação e inanição. Operação emergencial mobilizou veterinários e drones para evitar colapso populacional.

Wanessa·
Equipe resgata seis botos-do-Araguaia isolados pela seca extrema no Tocantins

A seca severa que atinge a região Centro-Oeste do Brasil deixou sua marca mais uma vez nos ecossistemas aquáticos. Entre os dias 21 e 24 de agosto, uma operação coordenada por instituições brasileiras resgatou seis botos-do-Araguaia (Inia araguaiaensis), espécie endêmica da bacia dos rios Tocantins-Araguaia e atualmente classificada como vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Os animais estavam presos em poças isoladas no rio Urubu, no Tocantins, com risco iminente de morte por desidratação e superaquecimento.

Fragmentação do habitat expõe fragilidade da espécie

Dos seis botos localizados, cinco foram inicialmente encontrados em duas poças distintas: duas fêmeas retidas em uma pequena área próxima a um barramento, enquanto três outros animais estavam 500 metros adiante, isolados em outro trecho sem conexão hídrica. O sexto indivíduo só foi identificado graças ao uso de drones e caiaques, que mapearam três áreas de fragmentação do rio pela redução drástica do nível da água. A seca extrema, que já dura meses, comprometeu a conectividade entre os corpos d’água, essencial para a movimentação e sobrevivência da espécie.

Mariana Frias, analista de conservação do WWF-Brasil, alerta para as consequências desse isolamento. "A redução do habitat coloca em risco não apenas os botos, mas todo o ecossistema aquático. Eles são indicadores da saúde ambiental: quando sofrem, é sinal de que o ambiente está sob estresse extremo", explica. Dos seis animais resgatados, dois — os mais debilitados — foram transferidos para pontos mais profundos do rio. Um deles apresentava sinais graves de inanição e desidratação após exposição prolongada ao sol. Os demais permanecem em monitoramento constante, com equipes de veterinários prontas para intervir caso haja piora em suas condições.

População reduzida e ameaças crescentes

Estima-se que existam menos de 1,5 mil botos-do-Araguaia no mundo, todos restritos à bacia Tocantins-Araguaia. A seca, que se intensifica entre maio e outubro, agrava ainda mais a situação. A redução do volume de água não apenas fragmenta o habitat, mas também expõe os animais a temperaturas elevadas e radiação solar intensa, condições que podem levar ao superaquecimento das poças remanescentes. Embora ainda não seja possível atribuir a seca extrema ao fenômeno climático El Niño — já estabelecido na região —, especialistas veem no atual cenário um alerta para a fragilidade do Cerrado diante de eventos climáticos extremos.

Mariana Frias reforça que a situação atual é um reflexo da vulnerabilidade do bioma. "Qualquer evento climático nos próximos meses pode agravar ainda mais a seca, e o Cerrado, com sua biodiversidade única, está no centro desse impacto. A sobrevivência do boto-do-Araguaia depende não apenas de ações emergenciais como esta, mas de políticas públicas que garantam a conservação de seus habitats a longo prazo", destaca. Enquanto os animais monitorados seguem sob cuidados, a operação reforça a urgência de medidas para proteger uma das espécies mais emblemáticas da Amazônia brasileira — e seu ecossistema cada vez mais pressionado pela crise climática.

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