Enchentes no RS: a crise climática expõe a urgência de organizar a informação no campo
A tragédia climática no Rio Grande do Sul revelou falhas na comunicação e gestão de dados, destacando a necessidade de sistemas mais eficientes para o agronegócio lidar com desastres.

Divulgação
As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram um rastro de destruição que se estende por mais de 206 mil propriedades rurais. O levantamento da Emater/RS-Ascar detalha o impacto devastador, com 48.674 produtores de grãos como feijão, milho e soja diretamente afetados, além de 19.190 famílias que sofreram perdas em suas moradias, galpões, silos e estruturas de produção. Apenas na cadeia da soja, a quebra estimada ultrapassou 2,71 milhões de toneladas, evidenciando a vulnerabilidade do setor agropecuário diante de eventos climáticos extremos.
A falha na comunicação em momentos críticos
Além das perdas materiais e de produção, a crise climática no campo expôs uma fragilidade igualmente preocupante: a dificuldade na gestão e disseminação da informação. Com estradas vicinais destruídas, muitas propriedades ficaram isoladas, e a identificação das necessidades mais urgentes dependia de dados fragmentados e de difícil consolidação. Essa observação foi feita pelo Capitão Roberto Farina, porta-voz da Defesa Civil de São Paulo durante as operações de apoio aos gaúchos. Ele ressaltou que, embora a informação existisse, ela chegava de forma desorganizada, por meio de mensagens, planilhas e ligações, dificultando uma visão completa da dimensão da tragédia e a priorização das ações.
O aprendizado transformado em conhecimento estruturado
A experiência vivida no Rio Grande do Sul motivou a dissertação "O papel da informação na gestão do conhecimento em desastres naturais: o caso da Defesa Civil de São Paulo na tragédia do Rio Grande do Sul", defendida e aprovada no Mestrado em Administração da ESPM. A pesquisa concluiu que a ausência de uma estrutura robusta para organizar as informações compromete a tomada de decisão durante crises, levando ao desperdício de aprendizados valiosos. O próprio relatório da Emater, alimentado pelo sistema Sisperdas, demonstra o valor de um fluxo organizado de dados, transformando relatos dispersos em subsídios para políticas públicas. Para o agronegócio, a capacidade de aprender e se adaptar a esses eventos é vital, considerando que, entre 2013 e 2025, desastres climáticos causaram prejuízos bilionários à agricultura e pecuária brasileiras.
Ferramentas para a tomada de decisão e preservação do conhecimento
Diante desse cenário, surgiram iniciativas para aprimorar a gestão de crises. Uma delas é o desenvolvimento de uma plataforma autônoma de superioridade decisória, liderada pela Teltex com base científica no ITA e participação de especialistas de universidades como a UFCG. Essa ferramenta visa organizar a informação em tempo real e garantir que o conhecimento adquirido em operações anteriores seja acessível para futuras crises. Paralelamente, programas de formação em gerenciamento de crise, análise de risco e tomada de decisão estão sendo oferecidos para capacitar profissionais a assumirem posições de liderança em cenários adversos. A aplicação de métodos da Pesquisa Operacional, ramo da matemática aplicada, também se mostra promissora para auxiliar líderes na ponderação de alternativas e na redução de vieses em momentos de alta pressão.
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