Conhecimento ancestral floresce: Quilombo do Espírito Santo resgata tradição de quintais medicinais
A iniciativa “Terreiro de Cura”, liderada por mulheres quilombolas de São Cristóvão (ES), está revitalizando os saberes sobre plantas medicinais, garantindo a transmissão entre gerações e fortalecendo a conexão com a terra. O projeto vai além do cultivo, promovendo formação, economia circular e a preservação de uma herança cultural valiosa para o território e comunidades vizinhas.

Divulgação
No coração do Quilombo São Cristóvão, localizado em São Mateus, no Espírito Santo, os quintais sempre representaram mais do que simples espaços de plantio. Eles são verdadeiros santuários de sabedoria, onde mulheres mais velhas, as guardiãs da memória local, têm, ao longo de gerações, ensinado e praticado o uso de plantas para a saúde e o bem-estar da comunidade. Banhos, pomadas, xaropes e garrafadas, preparados a partir das ervas cultivadas nesses quintais, são a manifestação de uma profunda conexão com a terra e de um sistema de cuidados que perdura através do tempo, mantendo viva a história e a identidade quilombola.
Contudo, a modernização e as mudanças no modo de vida trouxeram desafios, como a redução das áreas de cultivo e um certo afastamento das novas gerações, ameaçando a continuidade desse valioso patrimônio. Diante dessa realidade, a Associação das Mulheres Jongueiras Quilombolas de São Cristóvão (AMJQSC) abraçou a missão de revitalizar esses espaços e conhecimentos. Nasceu, então, o projeto “Terreiro de Cura: Produção de Ervas Medicinais nos Quintais do Quilombo São Cristóvão”, uma iniciativa robusta apoiada pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos, visando não apenas a preservação das práticas de cuidado, mas o fortalecimento da presença feminina e familiar no território.
O resgate do saber milenar em comunidade
O “Terreiro de Cura” se destaca por sua abordagem multifacetada, combinando formação, cultivo, troca de sementes e mudas, e, crucialmente, a transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações de mulheres. O curso “Ervas que Rezam” simboliza esse intercâmbio, reunindo matriarcas do quilombo e jovens integrantes da comunidade para compartilhar a sabedoria ancestral sobre as plantas e, ao mesmo tempo, aprender sobre a produção de fitoterápicos. A colaboração é enriquecida pela parceria com uma agricultora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), especialista em ervas medicinais, que agrega novas perspectivas e técnicas ao conhecimento já enraizado na comunidade.
Para Josiléia dos Santos do Nascimento, presidente da AMJQSC, a integração de diferentes faixas etárias é o cerne do projeto. “A gente entende que os jovens são uma continuidade desses saberes. Se eles não estiverem junto conosco, como vão aprender a conduzir esse processo? Um dos instrumentos que mais prezamos é justamente a transmissão dos saberes para os nossos”, ressalta, enfatizando a importância de preparar as novas gerações para serem as futuras guardiãs dessa herança cultural e ambiental.
Viveiro comunitário impulsiona circulação de saberes e produtos
Um dos pilares do “Terreiro de Cura” é a criação de um viveiro comunitário de ervas medicinais, fruto do trabalho coletivo das mulheres do quilombo. Este espaço não se limita a um local de cultivo; ele serve como um centro irradiador para que sementes, mudas e, consequentemente, o conhecimento sobre as plantas, circulem não apenas entre as famílias de São Cristóvão, mas também em outras comunidades do Sapê do Norte. Através de mutirões e da multiplicação das plantas, as mulheres da AMJQSC não só fortalecem o uso comunitário da terra, mas também contribuem ativamente para a manutenção da vitalidade do território quilombola.
Essa dinâmica de circulação de saberes e produtos já transcendeu os limites do quilombo, alcançando as feiras locais. As mulheres passaram a levar mudas de plantas medicinais e produtos cultivados em seu território para comercialização, abrindo novas vias para a geração de renda a partir de um conhecimento que sempre foi parte intrínseca da vida comunitária. Essa iniciativa fomenta uma economia circular e criativa, possibilitando a exposição e venda de ervas ornamentais e medicinais, como demonstrado na feira comunitária do 3º Encontro Cultural de São Cristóvão, onde o grupo expôs suas produções com grande sucesso.
O projeto “Terreiro de Cura” é, na verdade, uma evolução de uma experiência anterior da associação. Durante o período da pandemia, as mulheres quilombolas participaram de uma ação de educação popular em saúde que culminou na produção e distribuição de xaropes para as comunidades vizinhas. Essa vivência reforçou a urgência de retomar os quintais medicinais e assegurar a perenidade dos conhecimentos sobre as plantas. Nos quintais da comunidade, espécies como alecrim, arnica, açapeixe, pariri, abre-caminho, tipi, espada-de-são-jorge e babosa são cultivadas e usadas em diversas preparações, mantendo vivas práticas de cuidado transmitidas por gerações e fortalecendo os quintais como espaços de produção, memória e convivência.
A expansão dessa experiência é um testemunho de seu sucesso. Outros territórios quilombolas do Sapê do Norte já começaram a se inspirar e a trabalhar com ervas medicinais e plantas nativas, mostrando que o conhecimento gestado em São Cristóvão tem o poder de se espalhar. A associação planeja, inclusive, engajar crianças e jovens de forma ainda mais ativa com a “Trilha do Saber”, uma atividade que os levará a explorar as ervas presentes nas matas do território. Como afirma Josiléia, “Cada projeto que a gente entra abre um leque de possibilidades. E não só para nós, da comunidade São Cristóvão. A gente está abrindo portas e janelas para que outras comunidades também tenham acesso e fortaleçam sua cultura.”
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