Chuva persistente na colheita ameaça qualidade do café e preocupa produtores
O volume incomum de chuvas durante a colheita do café na atual safra está gerando um alerta significativo para a qualidade dos grãos. A umidade excessiva favorece o aparecimento de mofo, comprometendo tanto o café destinado ao mercado convencional quanto a disponibilidade de cafés especiais, segundo observações de cafeicultores.

Divulgação
A safra de café deste ano enfrenta um desafio complexo e preocupante para os produtores: o excesso de chuva durante o período de colheita. Essa condição climática adversa tem acendido um alerta sobre a qualidade dos grãos, desde a lavoura até o terreiro, um fator crucial para a cadeia produtiva e para a experiência do consumidor final. Tatiana Favoreto, cafeicultora do Sítio Três Anas, localizado em Muniz Freire, Espírito Santo, destaca que a alta umidade é um terreno fértil para o surgimento de mofo, comprometendo a integridade e o sabor do produto.
Em contraste com anos anteriores, quando a colheita era marcada por longos períodos de estiagem – geralmente entre três e quatro meses de seca –, a atual safra tem sido caracterizada por precipitações contínuas. Essa mudança nos padrões climáticos dificulta não apenas o processo de colheita em si, mas principalmente a etapa de secagem e a preservação da qualidade intrínseca dos grãos. O cenário impõe aos cafeicultores a necessidade de redobrar a atenção e buscar estratégias para mitigar os impactos, mas os desafios persistem em um grau incomum.
Impacto no café convencional e na xícara
Na avaliação da cafeicultora, o impacto mais severo das chuvas deve ser sentido principalmente no café comercializado como commodity, aquele destinado ao mercado convencional. A falta de um processo de seleção tão rigoroso quanto o dos cafés especiais faz com que grãos de qualidade inferior, ou já afetados pela umidade, cheguem ao consumidor. Favoreto observa que parte significativa dos grãos já chega ao terreiro com uma qualidade substancialmente reduzida, e novas perdas podem ocorrer nas etapas subsequentes até o produto final. A preocupação é que o efeito dessas chuvas chegue diretamente à xícara, especialmente para quem busca o café do dia a dia.
A seletividade dos cafés especiais
No segmento dos cafés especiais, a seleção é um processo rigoroso e criterioso, fundamental para garantir os altos padrões de qualidade exigidos. Grãos que não atingem esses parâmetros são descartados ou redirecionados para o mercado convencional. Por essa razão, a principal consequência das chuvas para os cafés especiais não é necessariamente a queda da qualidade do produto que chega ao mercado, mas sim a redução drástica do volume disponível para comercialização. Tatiana Favoreto estima que a oferta de cafés especiais nesta safra possa ficar entre 30% e 40% do volume habitualmente colhido. Há relatos, inclusive, de propriedades que registraram perdas de até 80% na produção de cafés especiais devido à persistência da umidade.
Cenário de oferta e desafios futuros
Os grãos que são reprovados na seleção para cafés especiais, como explica a produtora, são então encaminhados para o mercado convencional. Isso pode criar um paradoxo: mesmo em uma safra que possa ser volumosa em termos gerais, haverá uma disponibilidade significativamente menor de cafés de qualidade superior. Além de sua atuação no Sítio Três Anas, Tatiana Favoreto também administra duas unidades da cafeteria Delícias do Caparaó, em Iúna e Muniz Freire, o que lhe confere uma perspectiva ampla sobre a cadeia produtiva, do campo à xícara, e reforça a apreensão de todo o setor com os desdobramentos dessa situação climática.
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