Igrejas evangélicas e redes conservadoras preenchem lacuna deixada pela esquerda no Brasil, aponta análise
Socióloga Elizabeth McKenna, em artigo de opinião, discute como o enfraquecimento de partidos e sindicatos abriu espaço para a mobilização de eleitores por grupos religiosos e conservadores, impactando o cenário político brasileiro.

Divulgação
A ascensão de movimentos conservadores e da direita no cenário político brasileiro pode ser parcialmente explicada pelo esvaziamento das organizações que tradicionalmente atuavam como pilares de mobilização para a esquerda. Essa é a tese defendida pela socióloga política Elizabeth McKenna, professora da Harvard Kennedy School, em um artigo de opinião que analisa as dinâmicas de participação cívica no país. Segundo a especialista, a diminuição da sindicalização, que teria caído quase pela metade entre 2012 e 2025, abriu um vácuo que tem sido preenchido por igrejas evangélicas e redes conservadoras, fortalecendo a base política de determinados grupos.
Ocupação de espaço e mobilização de fiéis
McKenna argumenta que o avanço da direita não se resume a fatores como insatisfação econômica, mudanças culturais ou polarização. Para uma compreensão mais profunda, é crucial examinar como os brasileiros se envolvem na vida política e quais entidades conseguem efetivamente mobilizá-los. Nesse contexto, a autora destaca o papel das igrejas evangélicas, cuja proporção na população brasileira saltou de 9% em 1991 para 27% em 2022, representando um aumento expressivo de mais de 30 milhões de pessoas. Especialmente em áreas periféricas e de menor renda, essas instituições religiosas têm estabelecido uma conexão mais próxima com os moradores do que partidos políticos ou movimentos sociais tradicionais.
A estratégia de conexão entre fé e política
A socióloga aponta que essas redes religiosas se consolidaram como uma base política duradoura para a direita, pois os líderes religiosos conseguem vincular as crenças de seus fiéis a escolhas políticas. McKenna ilustra essa dinâmica com o exemplo de uma mulher pentecostal de baixa renda em São Paulo: embora os evangélicos tenham tido alianças com o PT por mais de uma década, a presença semanal de um pastor que ajuda a conectar a fé com a política pode levar à adesão a candidaturas conservadoras. Em contrapartida, os fiéis, que muitas vezes recebem pouco suporte do Estado e dos partidos, encontram nessas comunidades um senso de ordem, sobriedade e pertencimento.
Desafios para a organização política tradicional
Em sua análise, McKenna também atribui parte desse processo ao Partido dos Trabalhadores (PT), que teria, em sua visão, deixado de priorizar a organização local em favor de estratégias focadas em eleições e na gestão governamental. Essa mudança teria levado o partido a depender excessivamente da figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem um sucessor com capacidade de mobilização semelhante. A autora sugere que, para o futuro, um ambiente cívico mais resiliente dependerá de uma maior participação popular em organizações que também contribuam para a governança, a fim de mitigar a vulnerabilidade a discursos autoritários.
O papel das instituições e a dinâmica eleitoral
Ao abordar o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) na democracia brasileira, McKenna pondera que a Corte, por si só, não pode ser vista como uma garantia absoluta contra o autoritarismo. Ela menciona a desconfiança crescente dos brasileiros em relação a essa e outras instituições, especialmente após crises de corrupção. A atuação dos ministros contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora importante, não deve ser o único indicador da força do Estado de Direito. A socióloga conclui que, enquanto mais brasileiros não se engajarem em organizações que também participem da gestão pública, o país permanecerá suscetível a políticos com práticas autoritárias, independentemente de suas correntes ideológicas.
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