Roberta Miranda critica indiferença do sertanejo após perda pessoal
Aos 69 anos, a pioneira do gênero relata decepção com a falta de apoio de colegas após revelar tragédia familiar e anuncia fim de posicionamentos públicos por terceiros.

A cantora Roberta Miranda, ícone do sertanejo com mais de quatro décadas de carreira, chocou o meio artístico ao expor a frieza do ambiente que ajudou a construir. Aos 69 anos, ela revelou ter passado por uma das maiores decepções da vida não por um trauma pessoal, mas pela ausência de qualquer gesto de solidariedade de suas colegas de profissão.
A origem da mágoa remonta a 2024, quando a artista tornou público um episódio ocorrido na juventude: a perda de um filho ainda criança, vítima de agressão física. À época, a cantora não apenas compartilhou a dor como também esperava — em vão — que outras vozes do sertanejo feminino se manifestassem. Nenhuma mensagem, nenhuma visita, nenhum sinal de empatia. O silêncio das colegas, segundo ela, doeu mais do que a exposição do próprio sofrimento.
Em um rompimento aberto com a lógica do meio, Roberta Miranda anunciou que não mais se posicionará publicamente em defesa de outros artistas. A decisão marca o fim de uma trajetória de engajamento em que, durante anos, ela usou sua visibilidade para amparar cantoras mais jovens em situações de polêmica ou perseguição nas redes sociais. "Não vou mais colocar a cara para bater por ninguém", declarou, em clara referência àquilo que considera uma cultura de omissão sistemática no gênero que ajudou a popularizar.
Trajetória de pioneirismo e o peso da solidão
Roberta Miranda estreou nos palcos em 1986 e rapidamente se tornou a primeira mulher a conquistar projeção nacional em um universo dominado por homens. Sucessos como 'Vá Pra Sua Casa', 'Majestade o Sabiá' e 'Sonho Por Sonho' abriram caminho para gerações de artistas femininas no sertanejo. Essa história de resistência, no entanto, contrasta com a realidade atual: a de uma mulher que, após décadas defendendo outras, sentiu na pele a indiferença daqueles a quem ajudou.
A decisão da cantora toca em um debate recorrente no segmento: a distância entre o discurso de união entre mulheres no sertanejo e a prática concreta de apoio quando o caso não envolve repercussão comercial ou ganho de imagem. Para Roberta, o episódio não é pessoal contra determinadas artistas, mas uma crítica ao sistema que normaliza a omissão como estratégia de autopreservação.
A dor que ecoa além do palco
O relato de Roberta Miranda ganha ainda mais contornos quando se considera o contexto de sua trajetória. Em 2024, em entrevista ao Fantástico, ela revelou ter sido vítima de violência sexual na adolescência, enquanto trabalhava em uma casa noturna. A gravidez resultante desse crime foi interrompida após nova agressão do mesmo agressor. A cantora também contou ter fugido de casa aos 14 anos, buscando refúgio na música. Esses detalhes, embora não sejam reproduzidos aqui por respeito à sua intimidade, ajudam a entender a profundidade de sua dor e a magnitude da decepção com o meio que a acolheu.
Ao encerrar seu ciclo de defesa pública de terceiros, Roberta Miranda não apenas fecha um capítulo de sua vida artística como também lança um desafio ao sertanejo: o de refletir sobre o que realmente significa ser uma comunidade unida. A pergunta que fica é: quando a solidariedade é seletiva e condicionada, ainda pode ser chamada de irmandade?
Onde buscar ajuda
Para mulheres em situação de violência, o apoio está disponível 24 horas por dia. A Central de Atendimento à Mulher (180) oferece orientação, encaminhamento para a rede de proteção e pode ser acionada gratuitamente em todo o país. Em casos de emergência, o número a ser discado é o 190. Já denúncias de violência contra crianças e adolescentes devem ser feitas pelo Disque 100.



