Sem a China, Brasil e EUA iniciam consultas na Omc sobre tarifas
Brasil e Estados Unidos realizam em Genebra a primeira etapa da disputa na OMC contra tarifas americanas que podem chegar a 37,5%. Washington rejeitou a participação da China e defende as medidas com base em investigações sobre Pix, comércio e trabalho forçado.

Divulgação
Consultas começam em Genebra
Representantes dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump se reúnem nesta sexta-feira (25 de setembro de 2026), em Genebra, na Suíça, para as consultas sobre as tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. O encontro marca a primeira etapa do processo de solução de controvérsias na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Washington aceitou a abertura das consultas, mas rejeitou o pedido da China para participar da reunião. Para o governo americano, a disputa não envolve atos, políticas ou práticas chinesas e tampouco se refere a tarifas aplicadas a produtos originários do território chinês.
Pequim queria entrar na disputa
A China havia solicitado participação no processo porque a tarifa de 12,5% vinculada à investigação sobre trabalho forçado também atinge suas exportações para o mercado americano. Pequim argumenta que a medida interfere nas condições de concorrência dos produtos chineses vendidos nos Estados Unidos.
Brasil contesta tarifas de até 37,5%
O Brasil protocolou o pedido de consultas em 27 de julho contra duas cobranças fundamentadas na Seção 301 da legislação comercial americana. Uma tarifa de 25% decorre de uma investigação específica sobre práticas brasileiras, enquanto a cobrança adicional de 12,5% está relacionada a uma apuração mais ampla sobre trabalho forçado, que atingiu dezenas de países.
Para Brasília, as medidas ultrapassam os limites tarifários assumidos pelos Estados Unidos na OMC, tratam o Brasil de forma menos favorável do que outros parceiros em situação semelhante e aplicam punições antes de uma decisão multilateral. O país sustenta que Washington atuou como investigador, juiz e executor da controvérsia.
O Itamaraty já havia iniciado uma consulta semelhante em 2025, quando as tarifas tinham como base uma declaração de emergência econômica assinada por Trump. Com a mudança do fundamento legal para a Seção 301, o Brasil apresentou um novo pedido para reduzir o risco de questionamentos sobre a validade do processo.
Estados Unidos citam Pix e trabalho forçado
Os Estados Unidos defendem as tarifas com base em duas investigações. Na primeira, o representante comercial americano, o USTR, concluiu que políticas brasileiras relacionadas ao Pix prejudicam empresas dos Estados Unidos que atuam com pagamentos eletrônicos. O relatório também mencionou tratamento tributário, fiscalização anticorrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal.
Na segunda investigação, Washington afirmou que o Brasil não proíbe nem fiscaliza de maneira eficaz a importação de produtos fabricados com trabalho forçado. Com base nessas conclusões, o governo Trump classificou as práticas brasileiras como “irrazoáveis ou discriminatórias” para justificar as duas tarifas.
Brasil pode pedir painel em 60 dias
Se não houver acordo nas consultas, o Brasil poderá solicitar, após 60 dias, a criação de um painel de especialistas para avaliar a legalidade das medidas. Uma decisão favorável fortaleceria a posição brasileira nas negociações com Washington e daria respaldo internacional ao argumento de que as tarifas violam regras do comércio global.
O impacto prático, contudo, pode ser limitado. O órgão de apelação da OMC segue sem juízes desde 2019, o que dificulta a conclusão definitiva e a reversão rápida das tarifas. Ainda assim, um parecer favorável ampliaria a pressão diplomática sobre os Estados Unidos e influenciaria os próximos rounds de negociação entre os dois países.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








