PF diz que funcionário do BC preparava Vorcaro para reuniões com Campos Neto
Relatório da Polícia Federal afirma que servidor do Banco Central atuou como consultor informal do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, orientando teses, revisando documentos e tratando de temas sensíveis da autarquia. Defesas negam irregularidades.

Divulgação
Um relatório da Polícia Federal datado de 27 de agosto de 2026 concluiu que o servidor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza atuou como consultor informal do banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. O documento aponta que ele teria prestado uma assessoria paralela ao empresário, com orientações sobre estratégias de atuação e sobre o que deveria ser dito em reuniões com a diretoria da autarquia e com o então presidente Roberto Campos Neto.
Consultoria informal e preparação de reuniões
Segundo a PF, a atuação de Paulo Sérgio foi identificada a partir da análise técnica do celular de Vorcaro. O servidor, que chegou à chefia adjunta do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias, orientava pontos que deveriam ser enfatizados perante a cúpula do Banco Central, incluindo temas como governança, precatórios e posições do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC.
Em mensagens de dezembro de 2023, Paulo Sérgio teria classificado demandas do banqueiro como prioridade absoluta. Para os investigadores, esse tipo de interação indicaria proximidade incompatível com a distância esperada entre um agente público responsável pela supervisão e uma instituição financeira sob fiscalização.
Revisão de documentos e acesso a informações sensíveis
O relatório também afirma que o servidor revisou e alterou minutas de documentos do Banco Master que seriam encaminhadas oficialmente ao Banco Central. A PF sustenta que a redação foi ajustada para atender exigências do órgão regulador. Segundo o documento, padrão semelhante foi identificado em textos enviados ao FGC.
A investigação aponta ainda que Paulo Sérgio teria repassado informações sigilosas a Vorcaro, incluindo alertas sobre movimentações financeiras do grupo que teriam caído em filtros internos de fiscalização do Banco Central. A PF interpreta a conduta como tentativa de abrir portas e aliviar pressões sobre o grupo econômico supervisionado.
Intermediação de negócios privados
Além dos temas regulatórios, o relatório menciona atuações em negócios privados de Vorcaro. A PF cita tentativas de intermediar possíveis compradores para o Letsbank, com menções a Daniel Wainstein e ao Nubank. Também aponta solicitação de dados internos e mapas operacionais do Will Bank, com a justificativa de subsidiar posicionamento dentro do Banco Central.
Belline Santana também é citado
A Polícia Federal identificou padrão semelhante na conduta de Belline Santana, apontado como outro agente que teria atuado como consultor informal de Vorcaro. Segundo o relatório, ele participou de encontros privados e tratou de assuntos sensíveis relacionados ao Banco Central, inclusive temas fora de suas atribuições originais, como demandas perante a Comissão de Valores Mobiliários.
Defesas negam irregularidades
A defesa de Paulo Sérgio nega que ele tenha protegido interesses de Vorcaro. Em nota, afirmou que as conversas foram divulgadas de forma descontextualizada e que a interação entre supervisor e supervisionado fazia parte do cotidiano da atividade de fiscalização. Segundo a defesa, Paulo Sérgio atuou com rigor técnico, identificou problemas no Banco Master ainda em setembro de 2024 e formalizou achados que apontavam rombo de cerca de R$ 12 bilhões.
A defesa também destacou que o servidor teria defendido internamente a liquidação do Banco Master desde março de 2025, antes de a diretoria do Banco Central seguir esse caminho. Segundo a versão apresentada, Paulo Sérgio participou das ações que resultaram na Operação Compliance Zero e atuou na representação encaminhada ao Ministério Público Federal.
Já a defesa de Belline Santana afirmou que a exposição dos elementos da investigação tem sido seletiva e fragmentada. Segundo os advogados, essa divulgação parcial desvia o foco de relações e responsabilidades que, conforme a defesa, alcançam outros níveis superiores. O caso segue sob análise no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master e à atuação de agentes públicos no sistema financeiro.
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