Lula quer acabar com bets e cobra que clubes vivam sem “lavagem de dinheiro”
Em ato no Rio de Janeiro, o presidente defendeu o fim das apostas on-line, criticou a dependência financeira dos clubes e apontou a SAF como alternativa.

Divulgação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quarta-feira (23 de setembro), o fim das apostas on-line no Brasil e disse que os clubes de futebol precisam encontrar formas de financiamento que não envolvam “lavagem de dinheiro”. A declaração foi feita durante ato de campanha realizado na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, e reforça a disputa política sobre o setor antes do 1º turno, marcado para 4 de outubro.
Clubes e dependência financeira
Lula afirmou que recebeu um documento dos clubes advertindo que o fim das bets poderia comprometer o futebol no país. Para o presidente, a alternativa é revisar o modelo de sustentação financeira das equipes e reduzir a exposição de torcedores a plataformas de apostas. Ele criticou a ideia de que o esporte só conseguiria se manter com recursos desse setor.
Como argumento, o presidente citou conquistas históricas do futebol brasileiro, incluindo títulos mundiais da seleção e de clubes como Santos, Flamengo, Corinthians, Internacional e São Paulo. A intenção é mostrar que o sucesso esportivo nacional não dependia das apostas on-line, embora o contexto econômico e comercial atual seja diferente daquele vivido nas décadas anteriores.
Lula também defendeu a ampliação das SAFs, sociedades anônimas do futebol, como caminho para que os clubes recebam investimentos de empresários e ampliem sua capacidade de gestão. A proposta, porém, exige planejamento, estrutura jurídica e condições financeiras que nem todos os clubes possuem, especialmente equipes de menor porte.
Restrições e limites da proposta
Apesar da firmeza nos discursos de campanha, o governo ainda não definiu o modelo final de restrição. A avaliação interna é de que cassinos on-line, como o chamado jogo do tigrinho, devem sofrer medidas mais duras, enquanto as apostas esportivas poderiam permanecer regulamentadas. Assim, há uma diferença entre a promessa de acabar com as bets e o desenho técnico que será apresentado aos órgãos responsáveis.
Para Lula, o setor se financia com o dinheiro de famílias de baixa renda e pode contribuir para endividamento e dependência. Ele afirmou que os clubes deveriam refletir sobre a origem de parte de suas receitas e deixar de depender de apostadores em situação vulnerável. A crítica ao impacto social das apostas ganhou força nos últimos anos à medida que aumentaram as discussões sobre perdas financeiras, publicidade e problemas relacionados ao jogo.
Eleição e debate econômico
A campanha presidencial utilizou o slogan “Flávio é bet, Lula é o caminho” para associar Flávio Bolsonaro ao setor de apostas. O senador, que participou de uma missão oficial a Miami e Las Vegas em 2020 e votou a favor da regulamentação das apostas esportivas em 2023, posicionou-se contra os cassinos on-line, mas a favor das modalidades ligadas a futebol, vôlei e tênis. Ele defendeu o uso de tecnologia para controle e prevenção de irregularidades.
O governo já adotou medidas restritivas ao mercado. Em abril, o partido do presidente apresentou na Câmara dos Deputados um projeto para proibir as bets em todo o país. Três meses depois, determinou que a publicidade do setor exibisse alertas sobre riscos financeiros e dependência. Pesquisas da Secom indicam apoio majoritário da população a regras mais duras, com maior adesão entre mulheres e religiosos, especialmente evangélicos.
Dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda e do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento indicam que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas esportivas em 2025. No mesmo período, as plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões por Pix. A diferença entre os recursos transferidos pelos apostadores e os prêmios devolvidos pelas empresas foi calculada como perda líquida.
O tema também se conecta ao endividamento das famílias. Em agosto, 82% dos lares brasileiros declaravam algum tipo de dívida, segundo a CNC. O governo estuda ainda um novo programa de renegociação de dívidas antigas, em uma agenda que inclui o Novo Desenrola e outras medidas com impacto direto no orçamento doméstico. A disputa, portanto, não envolve apenas a regulamentação das apostas, mas também o futuro financeiro dos clubes e os limites do crédito no país.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








