Lula defende o fim das bets e abre debate sobre o financiamento do futebol
Presidente afirmou que pretende acabar com as apostas on-line, mas governo avalia restringir principalmente cassinos virtuais antes do primeiro turno.

Divulgação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, nesta quarta-feira (23), que pretende acabar com as bets no Brasil. Durante ato político no Rio de Janeiro, o presidente afirmou que teria “prazer” em encerrar o setor e cobrou dos clubes de futebol a busca por novas formas de financiamento. A manifestação ocorre menos de um mês antes do 1º turno das eleições, em 4 de outubro, e transforma a regulação das apostas em um tema central da disputa política.
Dependência dos clubes
Lula reconheceu que muitos times recebem recursos de empresas de apostas e relatou ter sido procurado por uma entidade que representa clubes. Para o presidente, o futebol brasileiro já conquistou títulos mundiais sem esse patrocínio. Ele citou o Santos de Pelé, o Flamengo campeão mundial em 1981, o Corinthians, o Internacional, o São Paulo e as seleções brasileiras campeãs em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.
A proposta coloca em evidência a dependência financeira de várias equipes. A retirada abrupta das bets poderia afetar receitas de patrocínio, manutenção de elencos e investimentos em categorias de base. Como alternativa, o governo defende a ampliação da SAF, modalidade que permite transformar clubes em sociedades anônimas e buscar investidores. A medida, porém, exige estrutura empresarial, governança e capacidade de atrair capital.
Fim geral ou restrição aos cassinos?
Apesar da declaração ampla de Lula, as medidas tecnicamente preparadas pelo governo parecem ter foco mais específico. Em reunião de quase três horas na Alvorada, ministros discutiram restrições às apostas on-line, com tendência de atingir cassinos virtuais, como o jogo do tigrinho, e manter as apostas esportivas. A diferença entre os modelos é importante: as bets incluem tanto apostas em eventos esportivos quanto jogos de cassino online.
O governo já apresentou iniciativas para limitar a atuação do setor, incluindo projeto para proibir as apostas e exigência de alertas sobre riscos financeiros e dependência. O debate também considera dados sobre o impacto nas famílias. Em 2025, as famílias brasileiras registraram perdas líquidas de R$ 62,5 bilhões em apostas esportivas, enquanto as plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões por Pix. Em agosto, 82% das famílias brasileiras afirmavam ter algum tipo de dívida, segundo a CNC.
Uso eleitoral do tema
A campanha de Lula adotou o slogan “Flávio é bet, Lula é o caminho”, relacionando o adversário Flávio Bolsonaro ao setor. A peça retoma a trajetória política do senador, que participou em 2020 de uma missão oficial a Miami e Las Vegas e votou, em 2023, pela regulamentação das apostas esportivas. Flávio, por sua vez, posiciona-se contra cassinos on-line, mas defende a manutenção das apostas em futebol, vôlei e tênis com controle tecnológico.
O tema tem apelo eleitoral porque conecta regulação, saúde financeira e endividamento. Ao mesmo tempo, uma proibição ampla exigiria planejamento para evitar impactos sobre clubes, empregos, arrecadação e empresas legalmente estabelecidas. Antes do primeiro turno, a declaração de Lula funciona tanto como promessa de governo quanto como sinal político sobre a prioridade que o tema terá caso sua candidatura seja novamente competitiva.
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