Lobista amiga de Lulinha pagou servidores de ministério, diz PF
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam que Roberta Luchsinger orientou pagamentos a servidores do Ministério do Desenvolvimento Social antes de contratos de R$ 50,4 milhões com empresa investigada. Defesas negam irregularidades.

Divulgação
A Polícia Federal encontrou mensagens no celular da empresária Roberta Luchsinger que indicam a realização de pagamentos a servidores do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. A pasta é comandada pelo ministro Wellington Dias (PT) e os valores foram depositados em 2023, antes da assinatura de contratos de R$ 50,4 milhões com uma empresa alvo da investigação.
Depósitos a servidores
Nas conversas apreendidas, Luchsinger pede ao funcionário Ulisses Barbosa que retire dinheiro em espécie para fazer pagamentos. Em uma das mensagens, ela escreve: “Vc pega 60 mil por favor para fazer uns pagamentos pra mim ta”. Após realizar as transações, Barbosa encaminhava os comprovantes à empresária.
Um dos comprovantes registra um depósito de R$ 20 mil para Ranniêr Costa Ciríaco, secretário-executivo adjunto do ministério. A PF também identificou repasses a José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial da pasta. Uma mulher que tem uma filha com ele aparece entre os beneficiários dos pagamentos, conforme os investigadores.
A investigação registra que José Martinho foi preso em 2014 pela Polícia Rodoviária Federal enquanto transportava R$ 180 mil em uma viagem de Brasília ao Piauí. Na época, ele trabalhava como motorista de Wellington Dias, então senador. O político afirmou não ter relação com o episódio.
Contratos de R$ 50,4 milhões
Os pagamentos ocorreram meses antes de a 3Structure IT, de Cleber Ribas de Oliveira, assinar um contrato de R$ 31,2 milhões com o ministério. O acordo foi fechado no fim de 2023, depois de a companhia vencer um pregão. A empresa atua nas áreas de cibersegurança e proteção de dados.
A PF também acompanha outro contrato de R$ 19,2 milhões firmado com a pasta em abril de 2026, com vigência até abril de 2031. A possível atuação de Luchsinger na intermediação de negócios entre a empresa e o governo federal é uma das frentes da investigação, que apura suspeitas de tráfico de influência e benefícios em contratações públicas.
Mensagens envolvendo Lulinha
Os investigadores também obtiveram uma troca de mensagens entre Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 24 de julho de 2023, ele pediu que ela emitisse uma nota fiscal para cobrar Cleber Ribas: “Emite a NF pro Cleber”. Luchsinger respondeu que já havia feito o documento, e Lulinha escreveu: “Boaaaaa”.
Defesas negam irregularidades
A defesa de Cleber Ribas afirmou que a 3Structure não tem conhecimento sobre os pagamentos citados pela PF. Segundo os advogados, todos os contratos com o governo federal cumpriram as normas de contratação pública e passaram por análises técnicas, instâncias decisórias e auditorias do Tribunal de Contas da União.
O Ministério do Desenvolvimento Social negou favorecimento na licitação dos serviços de backup de tecnologia. A pasta informou que a escolha ocorreu por pregão eletrônico, no qual vence a proposta de menor preço, e que os dois servidores mencionados não tinham competência sobre a área nem participaram do processo licitatório. A defesa de Luchsinger não se manifestou até a publicação deste texto.
Investigação sobre descontos no INSS
As apurações estão relacionadas à Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 para investigar suspeitas de descontos indevidos em benefícios do INSS. A PF estima prejuízo de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. Lulinha e Luchsinger são investigados no conjunto de ações que examina a atuação de empresas, intermediadores e agentes públicos.
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