Eleição presidencial: Lula aprofunda laços com o Brics, enquanto Flávio Bolsonaro cogita saída do bloco
O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras revela visões marcadamente distintas sobre o rumo da política externa do país. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a consolidação e a expansão da parceria com o Brics, o senador Flávio Bolsonaro, seu adversário, sinaliza uma possível retirada do Brasil do grupo, priorizando uma aproximação estratégica com os Estados Unidos e outros parceiros tradicionais.

Divulgação
A corrida pelo Palácio do Planalto no segundo turno, marcada para 25 de outubro, coloca em lados opostos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, ambos com propostas claras e divergentes para a política externa brasileira. Um dos pontos de maior contraste reside na relação que o Brasil deve manter com o Brics, um bloco de nações emergentes que tem ganhado projeção no cenário global e que, atualmente, inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Irã. A escolha do eleitorado, portanto, definirá não apenas a governança interna, mas também o posicionamento do país em importantes fóruns internacionais.
A agenda de Lula para o Brics e o Sul Global
O presidente Lula, que participou das cúpulas inaugurais do Brics em 2009 e 2010, defende um aprofundamento das relações com o bloco. Em seu plano de governo para um eventual quarto mandato, o Brics é mencionado explicitamente como um “espaço dos interesses da humanidade” e um pilar para a afirmação dos interesses da maioria global. A proposta inclui estreitar laços geopolíticos não apenas com o Brics, mas também com o G20 e o chamado “Sul Global”. Lula tem sido um entusiasta da ideia de desdolarizar as transações comerciais entre os países do grupo, uma pauta também defendida por Dilma Rousseff, ex-presidente e atual chefe do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), conhecido como Banco dos Brics. Em sua gestão atual, o presidente visitou todas as nações fundadoras do bloco, reforçando a prioridade dada a essa aliança.
A relevância econômica e geopolítica do bloco
O Brics, concebido inicialmente em 2001 por um economista para agrupar economias com alto potencial de crescimento e formalizado em 2009, não se configura como um bloco econômico tradicional, mas sim como uma aliança estratégica que tem fortalecido os laços comerciais do Brasil. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços revelam que, somente de janeiro a setembro de 2026, os membros originais do grupo foram responsáveis por US$ 95 bilhões em exportações brasileiras. A aliança representa um contraponto às políticas unilaterais de algumas potências, com o bloco convergindo em críticas a certas posturas globais. Recentemente, China e Rússia reiteraram apoio à adesão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, destacando a relevância do país dentro do Brics.
A visão de Flávio Bolsonaro e a prioridade aos EUA
Em contraste, o plano de governo do senador Flávio Bolsonaro não faz menção direta ao Brics. O documento, que cita os Estados Unidos seis vezes e a China duas, aponta para uma priorização da reaproximação diplomática com Washington, Israel e Argentina. Em entrevista recente, Flávio declarou que, caso eleito, irá reavaliar a permanência do Brasil no Brics, considerando-o “muito ideológico” e uma ferramenta utilizada para “provocar” os Estados Unidos e o ex-presidente Donald Trump, que já se posicionou criticamente em relação ao bloco e até ameaçou taxar países a ele ligados. A postura do senador segue a linha do atual presidente argentino, Javier Milei, que, ao assumir o cargo em 2023, retirou o país da adesão ao Brics, revertendo a decisão de seu antecessor.
Um futuro incerto para a diplomacia brasileira
Embora Flávio Bolsonaro critique a participação brasileira no Brics, é importante notar que o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador, sediou uma cúpula do bloco em 2019, ocasião em que discursou sobre a identificação de oportunidades e o potencial de cooperação. Essa nuance histórica demonstra que a relação do Brasil com o Brics nem sempre foi objeto de polarização tão acentuada. Contudo, a próxima cúpula do Brics, agendada para 2027, será um palco crucial para observar a reafirmação ou a reorientação da política externa brasileira, a depender do resultado das eleições. A escolha nas urnas definirá se o país seguirá fortalecendo laços com as nações emergentes ou buscará uma aliança mais estreita com potências tradicionais, alterando profundamente o mapa da diplomacia nacional.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








