A tragédia que vitimou centenas de cavalos de elite no Brasil atingiu um novo patamar nesta sexta-feira (15), com a confirmação de que a Polícia Científica de Alagoas iniciou uma nova fase de perícias para desvendar os responsáveis pela contaminação em rações comercializadas pela Nutratta Nutrição Animal. O caso, já classificado como inédito pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), soma mais de 245 mortes oficiais e pode se tornar o maior desastre sanitário da história do setor equino nacional.
A fábrica interditada e o braço criminal da investigação
Desde a interdição da unidade fabril da Nutratta, localizada em Alagoas, as autoridades trabalham com a hipótese de que falhas no controle de matérias-primas tenham possibilitado a contaminação dos alimentos. A empresa, que atua no mercado de nutrição animal há mais de duas décadas, agora enfrenta não apenas processos administrativos, mas também um inquérito criminal sob suspeita de crime ambiental e lesão a patrimônio alheio. A gravidade do episódio levou o MAPA a emitir um alerta sanitário em nível nacional, restringindo a circulação de lotes produzidos pela marca.
Prejuízos milionários e a morte de um garanhão avaliado em R$ 12 milhões
Entre os casos mais emblemáticos está o de um garanhão premiado, pertencente a um haras de elite no estado de São Paulo, que faleceu após apresentar sintomas de intoxicação aguda. O animal, avaliado em aproximadamente R$ 12 milhões, integrava programas de melhoramento genético e tinha potencial reprodutivo capaz de gerar milhões em crias. Segundo veterinários ouvidos pela reportagem, os sintomas — incluindo convulsões, hemorragias internas e falência múltipla de órgãos — são compatíveis com a ingestão de substâncias tóxicas presentes na ração contaminada.
As amostras apreendidas em Atalaia e o que revelam as perícias
Em uma ação coordenada pelo Instituto de Criminalística de Maceió, peritos coletaram amostras de ração apreendidas em um haras localizado no município de Atalaia, onde cerca de 90 cavalos morreram no ano passado. As análises laboratoriais, conduzidas pela médica-veterinária e perita criminal Jana Kelly, buscarão identificar não apenas a presença de metais pesados ou micotoxinas, mas também possíveis falhas no processo de fabricação ou armazenamento dos produtos. “O exame laboratorial é crucial para estabelecer o nexo causal entre a ração e as mortes. Precisamos determinar se a contaminação ocorreu na matéria-prima ou durante a produção”, afirmou Kelly.
O impacto no mercado equino brasileiro
O setor equino brasileiro, que movimenta R$ 15 bilhões anualmente e é um dos maiores exportadores de cavalos de esporte do mundo, enfrenta um abalo sem precedentes. Criadores, veterinários e proprietários de haras relatam perdas irreparáveis não apenas financeiras, mas também emocionais. “Nunca vimos nada parecido. Cavalos que treinávamos há anos, com linhagem comprovada, simplesmente desapareceram em questão de dias”, declarou um criador de Campinas, que preferiu não se identificar. A Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) já anunciou a criação de um grupo de trabalho para acompanhar as investigações e propor medidas de mitigação.
O que diz a Nutratta e os próximos passos das autoridades
Em nota oficial, a Nutratta Nutrição Animal afirmou que “colaborará integralmente com as investigações” e que adotou “todas as medidas sanitárias determinadas pelas autoridades”. A empresa negou qualquer responsabilidade pelas mortes e alegou que os lotes contaminados podem ter sido alvo de sabotagem ou contaminação cruzada durante o transporte. Enquanto isso, a Polícia Civil de Alagoas aguarda os resultados das perícias para decidir pela prisão preventiva de dirigentes da empresa ou pela abertura de ação penal. O Ministério Público Estadual já se manifestou favorável à responsabilização civil e criminal da fabricante.
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