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Porco influencer que ‘fala’ via botões desafia ciência e revoluciona bem-estar animal

Roberto Neves
20 de maio de 2026 às 10:43
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Porco influencer que ‘fala’ via botões desafia ciência e revoluciona bem-estar animal
Divulgação / Imagem Automática

Sacramento, Califórnia — O que começou como um experimento de treinamento cognitivo com um filhote de porco se transformou em um fenômeno digital capaz de mexer com as estruturas da ciência animal e da agropecuária global. Merlin, um suíno de 82 quilos, não apenas acumulou 1,2 milhão de seguidores no Instagram em menos de um ano — quebrando o recorde do Guinness Book como o animal com maior engajamento nas redes — mas também colocou em xeque séculos de crenças sobre a inteligência e a capacidade comunicativa dos porcos.

O treinamento que virou linguagem: como botões transformaram um porco em ‘influencer’

Por trás da fama de Merlin está uma metodologia científica de condicionamento operante, desenvolvida pela tutora Mina Alali. Desde os três meses de idade, o animal foi exposto a um painel com mais de 30 botões sonoros, cada um emitindo palavras ou comandos distintos quando acionados pelas patas ou focinho. O que parecia um mero truque de adestramento revelou-se algo muito maior: Merlin não apenas memorizou combinações de botões, mas passou a estruturar intenções complexas.

Em vídeos virais, o porco seleciona alimentos específicos (‘maçã’), chama pelos tutores (‘Mina’ ou ‘Chris’) ou até mesmo expressa estados emocionais (‘feliz’, ‘com fome’). Essa capacidade de combinar símbolos para formar mensagens coerentes — um comportamento conhecido como comunicação simbólica — é rara no reino animal e aproxima os suínos de espécies como primatas e golfinhos em termos de cognição.

Cérebro de porco: o que a ciência diz sobre a inteligência suína?

Estudos da etologia moderna já haviam demonstrado que os porcos possuem estruturas cerebrais comparáveis às de cães e gatos em complexidade, mas as pesquisas de Alali vão além. Testes de memória de longo prazo e resolução de problemas aplicados a Merlin revelam um desempenho compatível com o de uma criança humana entre três e cinco anos de idade.

A neurocientista Dra. Lori Marino, especialista em senciência animal e cofundadora do Kimmela Center, argumenta que projetos como o de Merlin são essenciais para desconstruir mitos históricos sobre os suínos. ‘Historicamente, os porcos foram retratados como animais de utilidade descartável na cadeia alimentar. Hoje, vemos que eles têm capacidade de raciocínio abstrato, empatia e até mesmo um senso de identidade própria’, explica. A pesquisadora destaca ainda que os avanços na comunicação interespécie não apenas enriquecem a vida dos animais em cativeiro mas também podem redefinir padrões éticos na indústria.

O impacto no agronegócio: da fazenda ao laboratório

A popularização de Merlin não é apenas um fenômeno de internet — é um divisor de águas para o setor agropecuário. Empresas de tecnologia agrícola já sinalizam interesse em adaptar painéis de comunicação para porcos criados em larga escala, buscando melhorar o bem-estar animal e, consequentemente, a produtividade. ‘Se um porco consegue expressar desconforto ou preferências, isso pode reduzir o estresse e evitar doenças’, afirma o zootecnista Dr. Rafael Oliveira, consultor em bem-estar animal.

Paralelamente, a União Europeia revisa normas de manejo suíno, enquanto organizações como a Humane Society International pressionam por leis que reconheçam a senciência desses animais. Nos Estados Unidos, a discussão ganha força após a divulgação de imagens de porcos confinados em condições precárias, contrastando com a imagem de Merlin interagindo de forma quase humana com seu público.

Críticos, no entanto, alertam para o efeito Merlin: a tendência de romantizar a criação de suínos para consumo. ‘É fundamental que o debate não se resuma à viralização de um animal excepcional, mas que abranja a milhões de porcos que ainda vivem em condições desumanas’, pondera a ativista Laura Braga, da ONG Veganos Brasil.

O futuro: comunicação interespécie ou apenas mais um viral?

O caso de Merlin levanta uma questão incômoda: até onde podemos — ou devemos — ir na interação homem-animal? Para a tutora Mina Alali, o objetivo nunca foi transformar o porco em um ‘robô falante’, mas sim demonstrar que a senciência suína é subestimada. ‘Merlin não é um fenômeno de mídia, é uma prova de que precisamos repensar nossa relação com os animais’, defende.

Enquanto o Guinness Book oficializa seu recorde e a ciência corre para estudar os limites da cognição porcina, uma coisa é certa: Merlin já cumpriu seu papel. Ele não apenas provou que os porcos podem ‘falar’ — ele forçou a sociedade a escutar.

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