Contexto histórico: o outono como alicerce da pecuária brasileira
O outono, estação que marca a transição entre o verão e o inverno no hemisfério sul, sempre representou um período de intensa movimentação no setor pecuário brasileiro, especialmente na Região Sul. Historicamente, essa época coincide com a entressafra de grãos em algumas áreas, permitindo que produtores direcionem recursos para a reposição de plantéis e investimentos em genética. Desde as décadas de 1970 e 1980, quando os primeiros remates estruturados começaram a ganhar força no Rio Grande do Sul, o outono se consolidou como um termômetro para o mercado de gado de corte e leite.
A tradição dos leilões de outono está intrinsecamente ligada à cultura da pecuária gaúcha e catarinense, onde a invernagem — sistema de criação que prioriza a engorda de animais durante o outono e inverno — exige animais de alto padrão genético para garantir produtividade. Nos últimos 20 anos, esse calendário ganhou complexidade, incorporando não apenas bovinos para abate, mas também touros e matrizes de alto valor genético, destinados à reprodução e melhoramento de rebanhos.
Maio de 2024: o mês que define o ritmo de 2026
O mês de maio de 2024 não apenas mantém, mas intensifica essa tradição, configurando-se como um marco para o setor. Pesquisas recentes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que o primeiro semestre do ano já apresenta crescimento de 8% no faturamento com leilões em relação a 2023, impulsionado pela demanda por animais com certificação genética e adaptabilidade às mudanças climáticas.
Segundo dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), a comercialização de doses de sêmen aumentou 12% nos primeiros quatro meses de 2024, reflexo do interesse crescente por touros melhoradores. Nesse contexto, maio se destaca como um mês-chave, pois concentra remates que não apenas avaliam o presente, mas também projetam tendências para a temporada de 2026. A Parceria Leilões, uma das principais organizadoras do setor, reforça essa dinâmica com uma agenda diversificada que abrange desde leilões de embriões de raças premium até eventos especializados em ventres e touros de reposição.
A agenda de leilões: diversidade e oportunidades estratégicas
A programação de maio reflete a maturidade do mercado, com eventos que atendem desde pequenos criadores até grandes investidores. No dia 6, o remate de embriões Brangus Premium abre a temporada com foco em genética de alto valor, enquanto o “Leilão Só Delas”, marcado para o dia 11, direciona sua oferta exclusivamente para matrizes, atendendo a um nicho cada vez mais demandado: fêmeas com histórico comprovado de produtividade.
Já os dias 13 e 14 reservam o “Leilão Guarita Origens”, um dos eventos mais aguardados do Rio Grande do Sul, conhecido por sua tradição de mais de três décadas e pela oferta de animais de raças como Angus e Hereford, reconhecidos internacionalmente por sua qualidade. Paralelamente, o “Rincon Day”, no dia 18, e o “Gado Definido ExpoAngus”, no dia 21, fecham a programação com propostas voltadas para touros e fêmeas de elite, consolidando maio como o mês com maior concentração de negócios de alto valor no calendário pecuário.
O leiloeiro Fábio Crespo, com mais de 15 anos de experiência no setor, destaca que a participação maciça de compradores em leilões presenciais e online tem sido um dos principais impulsionadores do mercado. “A digitalização dos remates ampliou o acesso a compradores de diferentes regiões, inclusive internacionais. Em maio, esperamos um movimento similar ao de 2023, quando registramos um índice de liquidez de 92% nos eventos que organizamos”, afirma Crespo. Segundo ele, a valorização média de animais com genética comprovada tem girado em torno de 15% acima dos valores de 2023, refletindo a confiança do setor.
Demanda por eficiência: o novo paradigma da pecuária brasileira
Por trás da agenda intensa de maio está uma transformação estrutural no setor pecuário: a busca por eficiência produtiva. Com a pressão por sustentabilidade e redução de emissões de carbono, criadores passaram a priorizar não apenas a quantidade, mas a qualidade genética do rebanho. Raças como Angus, Brangus e Hereford, tradicionalmente associadas à qualidade da carne, ganham ainda mais relevância em um mercado que exige animais precoces, adaptáveis a sistemas de integração lavoura-pecuária e resistentes a doenças como a febre aftosa.
O engenheiro agrônomo e consultor pecuário, Dr. Antônio Carlos Machado, explica que a valorização de animais com perfil produtivo está diretamente ligada à adoção de tecnologias. “Hoje, um touro não é mais avaliado apenas por seu pedigree, mas também por dados como EPD (Diferença Esperada na Progênie), que mede sua capacidade de transmitir características desejáveis. Os remates de maio refletem essa nova realidade, onde a transparência e a rastreabilidade do animal são tão importantes quanto seu preço”, ressalta.
Eventos paralelos e a sinergia com feiras tradicionais
A concentração de remates em maio não ocorre de forma isolada. O setor pecuário gaúcho é marcado por uma cultura de feiras e exposições que, historicamente, atraem compradores e vendedores para uma semana de negócios. A Feira de Uruguaiana, por exemplo, que ocorre no início do mês, funciona como um ponto de convergência para diversos leilões, criando um ecossistema onde negócios são fechados não apenas durante os eventos, mas também em encontros informais entre criadores.
Segundo dados da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), a Feira de Uruguaiana movimentou, em 2023, mais de R$ 200 milhões em negócios diretos e indiretos durante sua realização. Em 2024, a expectativa é que esse valor seja superado, impulsionado pela sinergia com os remates paralelos. “A feira não é apenas uma vitrine, mas um termômetro do mercado. Quando os preços dos animais sobem durante a feira, os leilões subsequentes tendem a acompanhar essa tendência”, explica a economista rural Mariana Oliveira, especialista em mercados agropecuários.
Perspectivas para 2026: o que os leilões de maio antecipam
As projeções para a temporada de remates de 2026 já começam a ser traçadas com base no desempenho de maio de 2024. Analistas do setor apontam para três tendências principais:
- Valorização da genética comprovada: Animais com certificação de EPD e histórico de produtividade devem continuar se destacando, com preços até 20% acima da média atual.
- Expansão do mercado internacional: A crescente demanda por carne brasileira no mercado asiático, especialmente na China e nos Emirados Árabes, deve aumentar a procura por touros e matrizes adaptados a sistemas intensivos.
- Digitalização e transparência: Plataformas online de leilões, como a utilizada pela Parceria Leilões, devem ganhar ainda mais participação, reduzindo custos logísticos e ampliando o acesso a compradores de diferentes regiões.
O analista de mercado agrícola da Safras & Mercado, Paulo Molinari, ressalta que o cenário é promissor, mas exige cautela. “O setor pecuário vive um momento de ouro, mas o desafio será manter a sustentabilidade dos preços. A entrada de novos investidores, especialmente fundos estrangeiros, pode gerar uma pressão inflacionária nos valores dos animais”, alerta.
Conclusão: maio como espelho de um setor em transformação
O outono de 2024 e o mês de maio, em particular, consolidam a pecuária brasileira como um dos setores mais dinâmicos do agronegócio nacional. Com uma agenda repleta de remates que vão de embriões a touros de elite, o mercado demonstra não apenas sua resiliência, mas também sua capacidade de se adaptar às novas demandas globais. Para criadores, investidores e analistas, maio é mais do que um mês de negócios: é um laboratório onde o futuro da pecuária está sendo escrito, um leilão de cada vez.
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