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Auroque: o gigante que pode voltar à Europa para salvar ecossistemas

Roberto Neves
22 de maio de 2026 às 15:35
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Auroque: o gigante que pode voltar à Europa para salvar ecossistemas
Divulgação / Imagem Automática

Há quase 400 anos, o último auroque — o maior bovino que já pisou na Terra — morreu na Polônia, selando a extinção de uma espécie que, por milênios, moldou paisagens da Europa, Ásia e África. Com até 1,80 metro de altura e chifres capazes de perfurar couraças, os auroques (Bos primigenius) não eram apenas animais: eram engenheiros ecológicos, mantendo o equilíbrio de florestas e pastagens através de seu pastoreio agressivo e constante movimentação.

A extinção que mudou ecossistemas — e a ciência que busca revertê-la

A caça excessiva, a perda de habitat e a domesticação reduziram a população de auroques até seu desaparecimento definitivo em 1627. Desde então, ecossistemas europeus perderam um dos seus principais reguladores naturais. Florestas se tornaram mais densas, pastagens murcharam sem o pisoteio constante e a biodiversidade encolheu. Agora, pesquisadores apostam em uma estratégia ousada: não ressuscitar a espécie exatamente como ela era, mas criar um animal funcional que atue como seu substituto ecológico.

De ancestral das vacas a esperança verde: como o ‘rewilding’ funciona

O projeto europeu, batizado de Tauros Programme, seleciona gado doméstico com características genéticas próximas às do auroque — porte robusto, agressividade controlada e dieta variada. Através de cruzamentos seletivos, cientistas da organização Rewilding Europe buscam recriar um bovino que, em essência, desempenhe o mesmo papel ecológico do auroque extinto. Os animais estão sendo testados em reservas naturais na Holanda, Espanha e Portugal, onde pastam livremente, controlando o crescimento de vegetação rasteira e abrindo espaço para espécies nativas.

O geneticista Frédéric Vigne, integrante do projeto, explica que a meta não é clonar um auroque, mas capturar a essência de sua funcionalidade. “Não queremos um animal igual ao original, mas um que cumpra as mesmas funções no ecossistema”, afirmou. Os resultados preliminares são promissores: áreas onde os bovinos similares ao auroque foram introduzidos apresentaram aumento na diversidade de aves e insetos, além de redução de incêndios florestais, graças ao controle natural da biomassa.

Auroque 2.0: mais do que um animal, uma ferramenta de restauração

O auroque moderno não será um relicário de DNA, mas um aliado na luta contra a crise climática. Segundo estudos da Universidade de Oxford, a reintrodução de grandes herbívoros como este pode sequestrar até 11 toneladas de CO₂ por hectare ao ano, ao restaurar pastagens degradadas. Na Alemanha, por exemplo, o projeto Bison Hillock já utiliza bisões europeus para o mesmo fim, com resultados que inspiram os cientistas do Tauros Programme.

No entanto, o caminho não é isento de desafios. Críticos argumentam que a reintrodução de animais semelhantes a auroques pode competir com o gado doméstico por recursos ou até mesmo hibridizar com raças comerciais, diluindo o material genético original. Para contornar isso, os pesquisadores monitoram de perto os rebanhos, garantindo que seu comportamento e habitat permaneçam o mais próximo possível do ancestral selvagem.

O legado de um gigante e o futuro das savanas europeias

Se o projeto for bem-sucedido, não será apenas um marco na conservação, mas uma lição sobre como o passado pode guiar soluções para o futuro. Afinal, o auroque não foi apenas uma presa ou uma lenda: foi um arquiteto invisível de ecossistemas que, mesmo após séculos de ausência, ainda tem muito a ensinar. Como resume a bióloga Liesbeth Bakker, do Instituto Holandês de Ecologia: “O auroque não morreu em vão. Sua história nos lembra que, às vezes, a chave para salvar o planeta está em olhar para trás — e reconstruir, não apenas preservar”.

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