Revolução verde no coração da Amazônia
No dia 7 de maio, a cidade de Santarém (PA) se tornou palco de uma discussão estratégica para o futuro do agronegócio brasileiro. Durante o Sustensoja – Caminhos para a Soja Sustentável, evento promovido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora) em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), pesquisadores, produtores e representantes da cadeia produtiva analisaram como transformar a produção de soja na Amazônia em um modelo economicamente viável e ambientalmente regenerativo. A iniciativa, que conta com o apoio da AgriTierra, Alauda Consulting e Jacobs Futura Foundation (JFF), representa um marco na tentativa de conciliar a crescente demanda global por commodities com a urgência da preservação do bioma amazônico.
Do convencional ao regenerativo: a metamorfose da agricultura na Amazônia
O projeto Soja Sustentável na Amazônia, em execução desde 2023, tem como objetivo central substituir práticas agrícolas convencionais por sistemas regenerativos nos estados do Acre, Rondônia e Pará. Essas regiões, além de sua importância produtiva, são extremamente sensíveis do ponto de vista ambiental, exigindo abordagens inovadoras que minimizem impactos negativos. Entre as tecnologias apresentadas durante o evento, destacaram-se o biochar – que promove o sequestro de carbono no solo por décadas – e a remineralização de solos, que reduz a dependência de fertilizantes químicos e aumenta a resiliência hídrica das propriedades.
O pesquisador da Fundepag, Lucas Lima, revelou que o projeto realizou um diagnóstico abrangente em 69 propriedades rurais, abrangendo mais de 61 mil hectares. Os resultados preliminares identificaram 32 mil hectares de cultivo de soja com potencial para adoção de práticas regenerativas, um número que, segundo Lima, pode aumentar significativamente com a expansão das tecnologias apresentadas. “O protocolo de agricultura regenerativa nos permite mapear não apenas a situação atual das áreas, mas também projetar cenários futuros de impacto ambiental e econômico”, explicou o pesquisador durante o evento.
ESG além do óbvio: uma visão holística da agricultura sustentável
Um dos diferenciais do projeto é sua abordagem multidimensional na avaliação das propriedades, que vai além dos indicadores tradicionais de ESG (Ambiental, Social e Governança). O diagnóstico realizado pela equipe da Fundepag incorpora cinco dimensões fundamentais: ambiental, governança, econômica, biodiversidade e agronômica. “Estamos ampliando o conceito de ESG ao incluir métricas que refletem a realidade da agricultura na Amazônia, onde a interação entre esses fatores é ainda mais complexa do que em outras regiões do país”, afirmou Lima.
Essa metodologia permite identificar não apenas os pontos críticos das propriedades, mas também oportunidades de melhoria que podem ser implementadas sem comprometer a produtividade. Segundo dados apresentados durante o Sustensoja, propriedades que adotaram práticas regenerativas registraram uma redução média de 25% no uso de insumos químicos e um aumento de 15% na retenção de água no solo, fatores que contribuem diretamente para a redução de custos operacionais e a mitigação de riscos climáticos.
Desafios globais e o papel do Brasil como fornecedor responsável
A pressão internacional sobre a cadeia produtiva da soja brasileira tem crescido exponencialmente, especialmente após a implementação de regulamentações como a Lei de Desmatamento Zero da União Europeia e a Estratégia de Redução do Desmatamento do Reino Unido. Nesse contexto, projetos como o Soja Sustentável na Amazônia ganham relevância não apenas como iniciativas ambientais, mas como estratégias de acesso a mercados premium e de mitigação de riscos regulatórios.
“A Amazônia não pode mais ser vista apenas como uma fronteira agrícola tradicional. Precisamos demonstrar ao mundo que é possível produzir soja de alta qualidade em harmonia com a floresta”, afirmou Maria Fernanda Gebara, diretora executiva do Imaflora, durante painel sobre mercados internacionais. Segundo ela, a adoção de práticas regenerativas não só atende às exigências dos consumidores europeus e asiáticos, mas também pode agregar valor aos produtos brasileiros, permitindo a comercialização em mercados que pagam premium por commodities produzidas de forma sustentável.
O futuro da soja amazônica: entre a inovação e a resistência cultural
Apesar dos avanços apresentados no Sustensoja, a implementação de práticas regenerativas enfrenta desafios significativos, especialmente em uma região onde a cultura do uso intensivo de insumos químicos ainda predomina. “A transição para sistemas regenerativos exige não apenas investimento em tecnologia, mas também uma mudança de mentalidade por parte dos produtores”, destacou Carlos Eduardo Bordin, coordenador de projetos da Fundepag. Segundo ele, o projeto tem investido em capacitação técnica e assistência continuada aos agricultores, com o objetivo de reduzir a curva de aprendizado e demonstrar resultados tangíveis no curto prazo.
Outro ponto crítico é a necessidade de políticas públicas que incentivem a adoção dessas práticas. “O mercado sozinho não será capaz de impulsionar essa transformação em velocidade suficiente. É fundamental que governos estaduais e federal desenvolvam programas de subsídio e crédito rural específicos para sistemas regenerativos”, argumentou Bordin. A Fundepag já está em negociações com o Banco da Amazônia para criar linhas de financiamento diferenciadas, com taxas de juros reduzidas e prazos estendidos para produtores que adotarem as novas tecnologias.
O que vem por aí: expansão e novos horizontes
Os resultados do projeto até o momento são promissores, mas os organizadores já planejam a próxima fase, que incluirá a expansão das áreas piloto para outros estados da região Norte e a introdução de novas tecnologias, como sistemas de irrigação inteligente e monitoramento por satélite em tempo real. “Nosso objetivo é criar um modelo replicável que possa ser adotado por produtores de todas as escalas, desde pequenas propriedades familiares até grandes cooperativas”, declarou Lima.
A iniciativa também está alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, particularmente os relacionados à fome zero (ODS 2), água limpa e saneamento (ODS 6) e ação climática (ODS 13). Para os próximos dois anos, a meta é atingir 50 mil hectares com práticas regenerativas na Amazônia, um número que, segundo os organizadores, pode representar uma redução de até 40% nas emissões de CO₂ do setor na região.
Enquanto o sol se punha sobre os campos de soja ao redor de Santarém, uma coisa ficou clara: a Amazônia está no centro de uma transformação silenciosa, mas profunda. Não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir melhor – e de garantir que o Brasil continue a ser um player global no agronegócio, sem que isso signifique a destruição do que resta de sua maior riqueza natural. O projeto Soja Sustentável na Amazônia pode não ser a solução definitiva para todos os desafios da região, mas certamente representa um passo concreto rumo a um futuro onde agricultura e conservação ambiental caminham lado a lado.
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