Diferença de preços do diesel no Brasil acende alerta para risco de apagão
Especialistas alertam para a crescente ameaça de escassez de diesel no Brasil. A disparidade entre os preços praticados no mercado interno pela Petrobras e o custo de importação, somada à oferta restrita global do combustível, desincentiva a vinda do insumo essencial ao país.

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O Brasil está sob alerta para um possível apagão de diesel, um cenário que pode impactar diretamente a economia, o transporte de cargas e, crucialmente, o setor do agronegócio, motor do desenvolvimento de regiões como o interior de Goiás. A advertência parte de Pedro Rodrigues, especialista em energia e sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), que aponta a significativa defasagem entre o preço do combustível comercializado internamente pela Petrobras e o custo de sua importação como o principal fator de risco. Esse descompasso, em meio a uma escassez global do derivado, reduz drasticamente o incentivo para que importadores privados tragam o volume necessário para o abastecimento nacional.
Escassez global agrava cenário de incertezas
A situação interna é complexa, mas encontra raízes em um panorama internacional desafiador. O mercado global de diesel tem enfrentado um período de oferta restrita, com reflexos visíveis em grandes economias. Nos Estados Unidos, por exemplo, os estoques atingiram patamares criticamente baixos, registrando em meados de setembro cerca de 107,9 milhões de barris, o menor volume para esta época do ano desde o início da série histórica, em 1982. A Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) projeta que essa condição de estoques abaixo da média dos últimos cinco anos persista até o final de 2026 e ao longo da maior parte de 2027. O aperto na oferta global é resultado de uma combinação de fatores, incluindo a redução das exportações de derivados do Oriente Médio, impactadas por conflitos, e as restrições de vendas externas da Rússia, após ataques a suas refinarias.
Defasagem de preços desestimula importação e ameaça abastecimento
Segundo a análise de Pedro Rodrigues, o preço no mercado internacional funciona como um sinalizador crucial: quando a oferta diminui e a demanda permanece alta, os preços sobem, alertando para a escassez e estimulando o aumento da produção ou o redirecionamento do combustível para onde há maior necessidade. Contudo, no Brasil, esse mecanismo vital não opera da mesma forma. A diferença entre o preço doméstico praticado pela Petrobras e o custo para importar o diesel do exterior se tornou tão acentuada que desestimula as operações privadas. O país, embora produza grande parte do diesel que consome, ainda depende do mercado externo para atender a cerca de 25% a 30% de sua demanda total. Em setembro, a disparidade foi gritante: o diesel A da Petrobras em Paulínia (SP) era comercializado a R$ 3,33 por litro, enquanto a paridade de importação, calculada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), chegava a R$ 6,65 por litro no mesmo polo, superando em alguns momentos os R$ 7. "Ninguém importa para vender pela metade. É assim que se fabrica um apagão de diesel", alerta o especialista.
Subvenções governamentais: alívio temporário ou problema maior?
Diante do cenário de alta e da necessidade de conter os impactos no bolso do consumidor e nos custos de produção, o governo federal tem recorrido a subvenções para reduzir a diferença entre o custo real e o preço praticado no mercado doméstico. Recentemente, esses benefícios somaram R$ 2,12 por litro de diesel, valor que o Ministério do Planejamento e Orçamento indicou ter a tendência de ser mantido por mais 30 dias. As medidas para conter os preços dos combustíveis já representavam um gasto de R$ 37,5 bilhões em 2026, após um pacote anunciado em setembro. Entretanto, para o sócio do CBIE, subsidiar o combustível, além de gerar um alto custo para o contribuinte, distorce o sinal dado pelo preço em um momento crítico de restrição da oferta mundial. "Preço não é vilão. É informação. E quem desliga a informação no meio de uma crise mundial não ganha desconto. Ganha fila no posto", conclui Rodrigues, reiterando a importância de permitir que o mercado reflita a realidade da oferta e demanda para garantir o abastecimento no longo prazo.
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