Brasil e EUA iniciam conversas na Omc sobre tarifas aduaneiras sem desdobramentos imediatos
O governo brasileiro se reuniu com representantes dos Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) para discutir as tarifas de 37,5% impostas a exportações brasileiras. O encontro, de caráter técnico e inicial, terminou sem avanços, como esperado, dando início a um longo processo de contestação que pode se estender até 2027.

Divulgação
Representantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva participaram nesta sexta-feira (25.set.2026) de um encontro crucial na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, na Suíça. A pauta era a contestação das tarifas de 37,5% aplicadas pelos Estados Unidos a exportações brasileiras, um tema sensível que movimenta as relações comerciais entre os dois países. Este primeiro contato, de natureza técnica, encerrou-se sem grandes desdobramentos, um cenário já previsto por diplomatas do Itamaraty, que veem nesta etapa o início de um processo complexo e de longo prazo.
O embate nas mesas da OMC
O Brasil, na posição de país reclamante, tem um prazo de 60 dias, conforme o mecanismo de Entendimento sobre Solução de Controvérsias da OMC, para buscar uma solução considerada mutuamente satisfatória com os Estados Unidos. Caso não haja consenso nesse período, o governo brasileiro poderá solicitar o estabelecimento de um painel para arbitrar a disputa. A delegação brasileira, composta pelos embaixadores Phillip Fox Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, e Maurício Lyrio, secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente, apresentou questionamentos detalhados. O Brasil argumenta que as taxas americanas, de 25% e 12,5%, excedem os limites máximos acordados pelos próprios EUA ao ingressarem na OMC, violam a regra de tratamento igualitário entre parceiros comerciais e foram impostas unilateralmente, sem o devido julgamento da organização.
Os argumentos americanos e a longa estrada à frente
A disputa ganha contornos ainda mais complexos ao considerar que a administração norte-americana, em relatórios do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), aponta o Brasil como alvo de apuração em diversas frentes, como o sistema Pix, comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. Uma das alegações centrais é que políticas públicas brasileiras, como as que favorecem o Pix, colocam empresas americanas em "desvantagem injusta", e há até mesmo menções a suposto "trabalho forçado" que geraria assimetria comercial. Um pedido da China para participar do processo como terceira parte interessada foi rejeitado pelos EUA, que alegaram que as consultas não se referiam a políticas ou produtos chineses. A expectativa é que todo o trâmite, iniciado formalmente em julho, possa se estender por mais de um ano, com uma conclusão provável apenas em 2027.
Implicações políticas e o futuro das tarifas
Apesar da morosidade inerente aos processos da OMC, o desfecho desta disputa tende a ter um impacto mais político do que prático imediato. Como o órgão de apelação do sistema de solução de controvérsias está sem juízes desde 2019, mesmo uma decisão favorável ao Brasil dificilmente resultaria na reversão automática das tarifas. Contudo, uma vitória brasileira fortaleceria significativamente a posição do país em futuras negociações com Washington e validaria o argumento de que as tarifas norte-americanas desrespeitam as regras do comércio global. Essa movimentação estratégica do Brasil busca defender seus interesses comerciais e reiterar a importância da multilateralidade em um cenário internacional cada vez mais volátil.
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