Biorrepositório inovador mira prevenção de câncer personalizada no Sus
Um projeto pioneiro liderado pelo Hospital de Amor busca revolucionar a prevenção do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). Através da criação de um vasto biorrepositório com dados genéticos e epidemiológicos de milhares de brasileiros, a iniciativa visa desenvolver ferramentas de avaliação de risco customizadas para a população miscigenada do país, prometendo um futuro onde a prevenção do câncer seja mais precisa e acessível a todos, especialmente no interior do Brasil.

Divulgação
O futuro da prevenção do câncer no Brasil pode estar mais próximo da personalização, graças a uma iniciativa robusta desenvolvida no renomado Hospital de Amor, em Barretos, São Paulo. A proposta central é a criação de um banco de amostras biológicas de milhares de brasileiros, que, cruzado com dados genéticos e epidemiológicos, poderá pavimentar o caminho para que o Sistema Único de Saúde (SUS) identifique com maior precisão indivíduos com risco elevado de desenvolver certos tipos de câncer. O objetivo final é oferecer estratégias de prevenção e rastreamento muito mais adaptadas às características individuais de cada paciente, tornando a saúde pública mais eficiente e eficaz.
A lacuna da medicina de precisão
Este ambicioso projeto já contabiliza a participação de mais de 4 mil pessoas e quase 40 mil amostras derivadas de sangue, com a meta de alcançar pelo menos 8 mil participantes nos próximos dois anos, divididos igualmente entre indivíduos com e sem a doença. Inicialmente, o foco está nos tumores de mama, colorretal e de colo do útero, três dos mais prevalentes na população brasileira. A iniciativa se destaca por endereçar uma lacuna crítica na medicina de precisão global: a vasta maioria dos estudos genômicos que fundamentam o conhecimento sobre o risco de câncer é baseada em populações de ancestralidade europeia. Como ressaltado por Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor e coordenador do estudo, essa disparidade genética torna inviável aplicar indiscriminadamente ferramentas desenvolvidas para outras realidades à população miscigenada do Brasil, que possui uma composição genética e um estilo de vida singulares.
Entendendo o escore poligênico de risco
Uma das ferramentas centrais que os pesquisadores buscam desenvolver é o chamado escore poligênico de risco. Diferente dos testes genéticos que detectam mutações hereditárias específicas, como as nos genes BRCA1 e BRCA2 (associadas a câncer de mama e ovário), o escore poligênico atua de forma mais abrangente. Ele avalia centenas ou milhares de pequenas variações espalhadas pelo DNA, cada uma com um efeito mínimo individualmente, mas que, somadas, fornecem uma estimativa da predisposição genética global de uma pessoa a um determinado tumor. Esse cálculo complexo permite identificar indivíduos com predisposição genética mais baixa ou mais alta, sem, no entanto, cravar um diagnóstico. A relevância reside em adaptar esses escores, que já existem globalmente, para a realidade brasileira, garantindo sua aplicabilidade e precisão em nossa população.
Além da genética: estilo de vida e ancestralidade
É crucial entender que um escore de risco elevado não sentencia ninguém ao câncer. A doença é o resultado de uma complexa interação entre a predisposição genética e uma série de outros fatores, como hábitos alimentares, nível de atividade física, tabagismo, obesidade e diversas exposições ambientais. O diferencial do trabalho brasileiro reside justamente na coleta de um vasto questionário epidemiológico, que abrange informações detalhadas sobre o estilo de vida, alimentação, profissão e outros possíveis fatores de risco dos participantes. Os pesquisadores pretendem investigar não apenas as variações genéticas ligadas ao câncer no Brasil, mas também como elas se relacionam com a rica ancestralidade do país (europeia, africana, indígena e asiática) e com as condições de vida dos brasileiros. Essa abordagem holística promete construir modelos de risco muito mais adequados à realidade do nosso povo, com o potencial de transformar a prevenção do câncer e a qualidade de vida em todo o território nacional, incluindo as comunidades do interior de Goiás e do Brasil.
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