Safra de café no Espírito Santo: boa qualidade geral, mas a busca pelas notas mais altas exige olhar para o microterroir
A safra de café de 2026 no Espírito Santo se destaca pela grande quantidade de lotes com boa qualidade e bebidas limpas, mas os cafés com as pontuações mais elevadas estão se mostrando mais raros. Especialistas apontam que condições climáticas específicas impactaram a formação dos frutos, concentrando a excelência em microterroirs muito específicos e valorizando o conhecimento detalhado da propriedade por parte do produtor.

Divulgação
A safra de café de 2026 no Espírito Santo, um dos principais estados produtores do Brasil, revela um cenário paradoxal para os especialistas: enquanto a quantidade de lotes com boa qualidade e limpeza de bebida é abundante, os cafés que alcançam as notas mais altas, cobiçadas no mercado de cafés especiais, estão mais difíceis de serem encontrados. Essa peculiaridade tem direcionado a atenção para fatores muito específicos dentro das propriedades rurais, destacando a resiliência e o conhecimento dos cafeicultores capixabas.
Essa avaliação minuciosa vem de Tássio da Silva de Souza, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Cafeicultura, mestre em Agroecologia e extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). Souza, que coordena o escritório do Instituto em Muqui e a Unidade de Referência em Cafés Especiais, é um dos profissionais certificados para a avaliação de cafés arábica e canéfora. Após extensas provas de cafés de diferentes regiões do estado, ele notou uma característica recorrente nas mesas de cupping: "Temos encontrado cafés com certa complexidade nos aspectos sensoriais, com muitas bebidas apresentando adstringência e sem uma percepção elevada de doçura. Isso demonstra que o clima, em determinado momento do ciclo de frutificação, comprometeu esse brilhantismo da qualidade."
O impacto do clima na doçura do grão
As condições ambientais desempenharam um papel crucial na formação e maturação dos frutos, afetando diretamente atributos sensoriais valorizados, como a doçura e a finalização da bebida. Essa interferência climática resultou em cafés que, embora de excelente limpeza, não conseguiram atingir o patamar de pontuação excepcional observado em anos anteriores. A maturação acelerada dos frutos em certos períodos, por exemplo, está entre os fatores que ajudaram a explicar essa particularidade da safra. Mesmo diante desse desafio, Tássio Souza faz questão de ressaltar que a safra não é de baixa qualidade. Pelo contrário, há uma grande quantidade de cafés superiores, prontos para agradar ao paladar, apenas com a ressalva de que os picos de doçura e complexidade são menos frequentes.
A ascensão do microterroir como diferencial
Nesse contexto desafiador, o conceito de microterroir ganhou uma importância ainda maior. Ele se refere às características muito específicas de uma pequena área de produção — altitude, exposição solar, umidade, tipo de solo e temperatura — que influenciam diretamente o desenvolvimento da lavoura. Na prática, isso significa que, dentro de uma mesma propriedade, diferentes glebas podem produzir cafés com perfis sensoriais distintos, alguns atingindo notas excepcionais onde outros não conseguem. "Às vezes, um ponto específico da propriedade conseguiu produzir um café superdiferenciado, enquanto outras áreas sofreram um pouco mais, principalmente durante o ciclo de frutificação", explica Souza. Essa percepção valoriza ainda mais o conhecimento detalhado que o produtor tem de sua terra, permitindo a separação estratégica de lotes para maximizar o potencial de cada área.
Esforço do produtor e o cenário futuro
A habilidade do produtor em identificar e manejar esses microterroirs específicos tornou-se o grande diferencial para alcançar cafés de pontuação elevada nesta safra. A dedicação e o trabalho árduo dos cafeicultores capixabas são evidentes na alta qualidade geral dos lotes, que apresentam excelente limpeza na xícara. "Nem todo ano será um ano de qualidade excepcional. O importante é que o produtor fez um bom trabalho. Os cafés estão apresentando bastante limpeza na xícara. Porém, aquela pontuação super elevada que muitos almejam infelizmente não veio em vários casos por características ambientais e climáticas que comprometeram esse resultado", conclui o extensionista. O cenário reforça a constante adaptação e o aprimoramento das técnicas agrícolas, mostrando que, mesmo diante de fatores incontroláveis como o clima, a excelência e o sabor continuam sendo prioridades no campo.
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