Embrapa desenvolve aplicativo para produtores orgânicos e supera desafio do letramento digital no campo
A Embrapa está na vanguarda do desenvolvimento tecnológico para o agronegócio, criando um aplicativo inovador para produtores de alimentos orgânicos. A ferramenta promete simplificar o processo de certificação participativa, substituindo burocracia em papel por um sistema digital que gera um valioso banco de dados. Contudo, o grande desafio reside em tornar a tecnologia acessível e amigável para agricultores com baixa familiaridade digital, um obstáculo que a pesquisa busca superar através de oficinas e co-criação com os usuários.

Divulgação
A busca por alimentos mais saudáveis e sustentáveis tem impulsionado o crescimento da produção orgânica no Brasil. Para apoiar e otimizar o trabalho de quem está na linha de frente, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está desenvolvendo um aplicativo pioneiro. A ferramenta tem como objetivo principal auxiliar produtores de alimentos orgânicos no complexo processo de certificação participativa, um mecanismo crucial para garantir a autenticidade e qualidade dos produtos.
A iniciativa vai muito além da simples substituição de papéis por telas. Ao digitalizar o registro de informações, o aplicativo visa economizar um tempo precioso para os agricultores e, simultaneamente, criar um robusto banco de dados. Esse sistema permitirá gerenciar a produção e a comercialização de forma mais eficiente, especialmente para as associações e cooperativas de produtores. No entanto, o projeto enfrenta um desafio significativo: criar uma ferramenta intuitiva e amigável para um público que, muitas vezes, possui pouca ou nenhuma familiaridade com a tecnologia digital.
O desafio de um app intuitivo para o campo
A pesquisadora Gisele Freitas Vilela, da Embrapa Territorial e líder do projeto, sintetiza o propósito: "Nosso objetivo é entregar uma ferramenta simples, eficiente e totalmente alinhada às necessidades reais dos usuários, fortalecendo a gestão da informação na produção orgânica". A analista Vanessa Maia Aguiar Magalhães, da Embrapa Gado de Leite, complementa, destacando que a premissa é que "não queremos que a pessoa se adapte ao sistema, mas que o sistema se adapte à realidade dela". Essa filosofia é crucial, pois muitos produtores não reconhecem sinais intuitivos para quem acompanha a evolução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) – ícones como o disquete para salvar ou caixas de preenchimento não são imediatamente associados às suas funções.
Parcerias para a construção participativa
Para superar essas barreiras, a Embrapa tem adotado uma metodologia de desenvolvimento participativo, realizando oficinas com os próprios agricultores. Em setembro, equipes estiveram em cidades como Três Cachoeiras (RS), Garopaba (SC) e Ribeirão Claro (PR), apresentando uma primeira versão do aplicativo. Nessas ocasiões, os agricultores instalaram a ferramenta e tiveram suas interações gravadas, permitindo que a equipe de desenvolvimento identificasse pontos de dificuldade e melhorias. Experiências semelhantes foram realizadas previamente em São Paulo e Minas Gerais.
Vanessa Aguiar, que participou das oficinas, ressalta a importância de considerar o contexto tecnológico dos produtores, que frequentemente utilizam smartphones com telas pequenas, baixa resolução e capacidade limitada de memória e processamento. Além disso, existe uma barreira psicológica: "Também enfrentamos uma resistência ao digital. A pessoa tem medo, tem vergonha de não saber usar, tem receio de que seus dados sejam roubados. Então, há algo a ser construído com eles", pontua a analista. Todo o material coletado, incluindo hábitos de uso de tecnologias digitais, está sendo analisado para adaptar a linguagem, ícones, interface e navegabilidade, com novos eventos de avaliação já previstos.
Autonomia digital: mais que usar, compreender
O objetivo final, segundo Vanessa, é garantir que o usuário não apenas consiga operar o aplicativo, mas que interprete, compreenda e se aproprie da interface e do conhecimento. A meta é desenvolver uma metodologia e uma ferramenta que permitam ao produtor operar de forma verdadeiramente autônoma, entendendo o significado de cada campo e de cada ação realizada. Embora treinamentos possam ser necessários inicialmente, a expectativa é que o tempo de adaptação seja minimizado, capacitando os agricultores a gerir sua produção orgânica com total independência digital.
Benefícios que vão além da economia de tempo
O aplicativo é especialmente projetado para as Organizações de Controle Social (OCS) e Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs), que congregam cerca de 65% dos produtores de orgânicos do país. A digitalização promete reduzir drasticamente o tempo gasto no preenchimento de documentos, um volume gigantesco de informações que precisa ser atualizado periodicamente para comprovar o caráter orgânico da produção. Detalhes sobre plantio, aquisição de sementes, uso de fertilizantes, combate a pragas, dados de comercialização e informações sobre a propriedade, como medidas de conservação e gestão de resíduos, são exemplos da vasta quantidade de dados a serem registrados.
Ao manter um histórico gravado, a ferramenta evitará a repetição de informações, economizando horas de trabalho. Mas a maior vantagem talvez resida na formação do banco de dados. Essas informações, como estimativas de produção e insumos mais utilizados, poderão ser estratégicas para melhorar a comercialização, organizar compras coletivas e, crucialmente, suprir a demanda de órgãos públicos por dados que orientem políticas públicas específicas para o segmento orgânico. Por essa razão, o Ministério da Agricultura e Pecuária é parceiro do projeto, que também conta com a participação da Embrapa Clima Temperado (RS), além da Territorial e Gado de Leite.
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