Ceo da Cargill defende dragagem de rios para escoar grãos por hidrovias
Paulo Sousa afirma que a manutenção do calado é necessária para evitar paralisações no transporte hidroviário durante a estiagem. Governo federal suspendeu a dragagem no rio Tapajós após avaliação técnica e diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais.

Divulgação
O CEO da Cargill Brasil, Paulo Sousa, defendeu a realização de dragagem de manutenção nos rios utilizados para o transporte de grãos. Para o executivo, a medida é necessária para preservar a navegabilidade das hidrovias, especialmente em períodos de seca, quando a redução do calado limita a capacidade das barcaças e pode inviabilizar viagens.
Estiagem ameaça o transporte de grãos
O alerta ganha relevância em anos marcados pelo El Niño, fenômeno climático associado a temperaturas mais altas e à redução das chuvas em parte do país. Sousa citou os rios Tapajós e Madeira, no Norte, que costumam voltar a subir com o avanço da estação chuvosa, a partir de dezembro. Enquanto isso, as empresas precisam administrar a queda no volume transportado por barcaça.
Segundo o executivo, chega um momento em que a quantidade de carga colocada em cada embarcação fica tão reduzida que o consumo de combustível torna a operação economicamente inviável. A Cargill ainda utiliza as hidrovias, mas avalia planos de contingência caso a navegabilidade piore nos próximos meses.
Impacto pode chegar a milhões de toneladas
A MoveInfra estima que até 5 milhões de toneladas de grãos podem deixar de ser transportadas pela hidrovia do rio Tapajós se a dragagem de manutenção não for realizada. A entidade também calcula que o desvio de carga para as rodovias pode acrescentar até R$ 850 milhões aos custos do setor agrícola.
O governo federal decidiu não realizar a dragagem, neste momento, no trecho do Tapajós entre Itaituba e Santarém, no Pará. A decisão foi tomada após avaliação das informações técnicas, articulação entre órgãos públicos e consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais da região. A Casa Civil informou que o fluxo rodoviário regular e intervenções nas estradas poderão atender a um eventual aumento no número de caminhões.
Para a Cargill, uma alternativa é levar a carga até o porto de Santarém por estrada. Sousa reconheceu, porém, que o modal rodoviário é menos eficiente para percorrer mais de 200 quilômetros até o terminal. A mudança pode ser mais crítica para empresas dependentes de instalações em Vila do Conde, também no Pará.
Dragagem divide empresários, governo e comunidades
O impasse envolve questões logísticas, econômicas e ambientais. Sousa afirmou que apoia a dragagem desde que todas as exigências ambientais sejam cumpridas, mas criticou a falta de avanço no diálogo com o governo federal. Ele também comentou protestos e ocupações ligados à discussão sobre intervenções na Bacia Amazônica, defendendo que o debate não seja conduzido por meio de conflitos.
Outro ponto sensível é o Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, em um trecho entre Itupiranga e Nova Ipixuna, no Pará. As obras, que incluem derrocamento de rochas, enfrentam disputas judiciais e afetam diretamente a realidade de mais de 20 comunidades ribeirinhas da região.
O ministro dos Transportes, George Santoro, avaliou que o Brasil precisa ampliar estudos técnicos para desenvolver as hidrovias e reduzir inseguranças sobre seus impactos. Santoro citou como exemplo a necessidade de demonstrar aos órgãos ambientais que a dragagem do rio Paraguai não provocará o secamento do Pantanal.
Para o CEO da Cargill, o país deve avançar em uma política de Estado capaz de integrar hidrovias, ferrovias e portos. Sousa espera que, nos próximos cinco anos, a Ferrogrão esteja em obras e que haja solução para o Pedral do Lourenço, permitindo que as barcaças operem com capacidade plena mesmo durante os períodos de menor volume nos rios.
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