A herança de uma geração à beira do colapso
O que começou como mais um dia na Fazenda Araponga, em São Paulo, se transformou no pesadelo que abalou a trajetória de Shiro Nishimura e de sua família. Filho de imigrantes japoneses e herdeiro de um legado construído a duras penas no agronegócio, ele viu seu patrimônio — simbolizado por mais de 13 mil cabeças de gado Nelore e inúmeras propriedades — evaporar em questão de horas. A causa? Um dos episódios mais traumáticos da economia brasileira: o confisco das poupanças pelo Plano Collor, há 36 anos.
“Você tem 50 dólares na conta”: o momento em que o dinheiro sumiu
Em depoimento ao episódio #186 do AGRO360 Podcast, apresentado por Rafael Vilella, Nishimura relembrou o choque ao descobrir que todo o capital reservado para manter a Jacto — empresa fundada por seu pai — havia sido bloqueado pelo governo federal. “Cheguei na fazenda e o contador olhou para mim e falou: *‘Você tem 50 dólares na conta’*. Eu disse: *‘Como assim?’* Eu sempre deixava dinheiro para dois meses de despesa: salários, vacinas, manutenção… e esse dinheiro tinha desaparecido da noite para o dia”, contou, com a voz embargada pela emoção.
A pecuária, à época, operava em ciclos longos: o boi era abatido, mas o pagamento levava até 30 dias para ser efetivado. Sem reservas, a sobrevivência da fazenda dependia de capital imediato — algo impossível após o bloqueio de cerca de US$ 80 bilhões em poupanças e contas correntes.
Vender para não quebrar: a estratégia desesperada de um pecuarista
Sem acesso a crédito ou liquidez, Nishimura foi obrigado a agir rápido. A solução? Vender gado, terras e patrimônio a preços aviltados para honrar compromissos urgentes. “Fui no frigorífico e falei: *‘No dia que você matar boi, os primeiros 230 bois são meus’*. Eu precisava pagar conta. O povo estava achando que eu era caloteiro, mas não tinha como honrar os compromissos”, desabafou. A estratégia, embora salvou a empresa da falência imediata, deixou marcas profundas: “Perder aquele patrimônio foi como tirar um pedaço da minha vida”.
O Plano Collor e o abalo no agronegócio: quando o Estado quebrou o campo
O confisco das poupanças em março de 1990, durante o governo Collor, não poupou sequer os produtores rurais. Com a inflação beirando os 80% ao mês, o governo tentou conter o avanço dos preços com medidas radicais — mas o resultado foi uma crise sem precedentes. Empresas do setor agropecuário, dependentes de capital de giro, viram suas reservas congeladas. “O sistema da pecuária funcionava em ciclos longos. Se você não tinha reserva, estava morto”, explicou Nishimura.
O impacto se estendeu além das finanças: salários deixaram de ser pagos, contratos foram rompidos e milhares de negócios rurais fecharam as portas. Para a Jacto, a sobrevivência dependeu de uma decisão amarga: vender o que levou décadas para construir.
Lições de resiliência: como o agronegócio sobreviveu ao maior golpe econômico do Brasil
Três décadas depois, o relato de Nishimura serve como um alerta sobre os riscos de políticas econômicas abruptas — e também como prova de que, mesmo nas crises mais profundas, a resiliência do setor agropecuário brasileiro se impôs. “A gente aprendeu que não podemos depender só do governo. Temos que ter reservas, diversificar e, acima de tudo, acreditar no nosso trabalho”, afirmou o pecuarista, que hoje segue à frente da Jacto, agora mais diversificada e preparada para enfrentar novos desafios.
O caso de Shiro Nishimura é um retrato fiel de como o Plano Collor não apenas mudou a vida de uma família, mas redefiniu a gestão financeira do agronegócio brasileiro — uma lição que, décadas depois, ainda ecoa nas decisões de produtores rurais em todo o país.
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