A assinatura de um protocolo para a criação do Centro de Referência em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Olivicultura do Rio Grande do Sul marca um ponto de virada para um setor que, embora promissor, ainda enfrenta barreiras estruturais. A iniciativa, formalizada durante a Abertura Oficial da Colheita da Oliva em Triunfo (RS), reúne o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), três universidades federais (UFSM, Ufpel e UFCSPA), além de secretarias estaduais de Inovação e Agricultura e produtores locais. O objetivo é claro: transformar o estado no epicentro da produção nacional de azeites de alta qualidade, superando gargalos como a baixa regularidade produtiva e a dependência de cultivares importadas.
A queda de braço com o clima e a busca pela estabilidade produtiva
O presidente do Ibraoliva, Flávio Obino Filho, não esconde a urgência do projeto. Em entrevista exclusiva, ele destacou que o Brasil produz “o melhor azeite do mundo”, mas a falta de fruta — agravada por eventos climáticos extremos como geadas e estiagens — compromete a competitividade do setor. “Precisamos voltar para dentro da porteira e investir fortemente em pesquisa para entender o que fizemos de certo e o que ainda precisamos corrigir”, afirmou. A fala reflete um paradoxo nacional: enquanto a demanda por azeite extra virgem cresce — impulsionada por um mercado que valoriza produtos premium —, a produção brasileira ainda oscila entre 20% e 30% da capacidade instalada, segundo dados do setor.
Universidades e governo unidos pela inovação no campo
A proposta do centro vai além do tradicional modelo acadêmico. O diretor da Agência de Inovação (Inova) da UFCSPA, Hélio Leães Hey, define o projeto como uma “estratégia de cooperação permanente” para conectar o conhecimento científico às demandas reais do campo e da indústria. “Não se trata de apenas gerar papers ou projetos isolados, mas de criar um ecossistema onde a pesquisa aplicada dialogue diretamente com as necessidades dos olivicultores”, explicou. Entre as frentes de atuação estão a adaptação de cultivares ao clima gaúcho, a otimização de técnicas de manejo e a implementação de sistemas de certificação que garantam a rastreabilidade e a qualidade dos azeites produzidos.
Do laboratório à mesa: o impacto econômico e social da olivicultura
O Rio Grande do Sul já responde por cerca de 90% da produção nacional de azeite, com destaque para regiões como Serra Gaúcha e Campanha. No entanto, o potencial econômico do setor — que movimenta mais de R$ 500 milhões anuais segundo estimativas do Ibraoliva — ainda é limitado pela falta de escala e pela dependência de importações de azeitonas para processamento. O novo centro busca reverter esse cenário ao fomentar inovações que permitam a expansão dos olivais, a diversificação de produtos e a conquista de novos mercados, inclusive internacionais.
Para especialistas, a iniciativa chega em um momento crucial. “O Brasil tem todas as condições para se tornar um player global no segmento, mas isso requer investimentos consistentes em tecnologia e capital humano”, avalia um analista do setor agroindustrial. A equipe do centro, que incluirá pesquisadores, técnicos e estudantes, será responsável por mapear as principais vulnerabilidades da cadeia produtiva e propor soluções baseadas em ciência — desde o melhoramento genético de oliveiras até a implementação de práticas sustentáveis de irrigação.
O que muda com o centro e quais os próximos passos?
Nos próximos meses, o foco será estruturar a equipe multidisciplinar e definir as linhas prioritárias de pesquisa. Entre os projetos já em análise estão a criação de um banco de germoplasma com cultivares adaptadas ao clima subtropical, a desenvolvimento de protocolos para controle de pragas e doenças, e a capacitação de mão de obra especializada. Além disso, o centro planeja parcerias internacionais para troca de tecnologias, com foco em países como Espanha, Itália e Portugal — referências globais na produção de azeite.
O desafio, contudo, não é apenas técnico. “É preciso também trabalhar na percepção do consumidor”, alerta Obino. “Muitos ainda associam o azeite brasileiro a produtos de baixa qualidade, quando na verdade já temos casos de excelência reconhecidos mundialmente.” A estratégia inclui ações de marketing e educação para destacar a origem e os diferenciais dos azeites gaúchos, como o terroir único da região e as práticas agrícolas sustentáveis adotadas pelos produtores locais. O centro, nesse sentido, será um aliado na construção de uma identidade forte para o setor, capaz de atrair investimentos e consolidar a marca “Azeite do Rio Grande do Sul” no mercado nacional e internacional.
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