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Quatro mortes em duas semanas: acidentes na colheita expõem falhas de segurança no agronegócio capixaba

Roberto Neves
14 de maio de 2026 às 16:09
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Quatro mortes em duas semanas: acidentes na colheita expõem falhas de segurança no agronegócio capixaba
Divulgação / Imagem Automática

O Espírito Santo enterra quatro trabalhadores rurais em menos de 14 dias. O que parecia ser mais um ciclo de colheita promissor nas lavouras de café e pimenta se transformou em uma crise humanitária e produtiva, com mortes que poderiam ter sido evitadas. Em Vila Valério, uma explosão destruiu um alojamento, ceifando três vidas; em Jaguaré, uma queda banal em um secador selou o destino de um produtor. Os acidentes não são mera coincidência: são sintomas de um sistema que negligencia a segurança no campo, mesmo com regulamentações como a NR 31.

Vila Valério: a armadilha escondida nos alojamentos rurais

Três trabalhadores baianos — Gildeson Gama Leite, Ilmar Gama de Souza e Aldino Alves Almeida — perderam a vida em um incêndio que consumiu seu alojamento em uma fazenda de café. As queimaduras de terceiro grau, que atingiram até 90% dos corpos, foram fatais. A hipótese inicial de curto-circuito por carregamento de celulares, levantada pela fazenda, foi contestada pela prefeitura de Vila Valério, que aponta um provável vazamento de gás como causa do desastre.

A tragédia expõe uma realidade incômoda: os alojamentos rurais, muitas vezes construídos às pressas para abrigar trabalhadores temporários, são verdadeiras caixas de pólvora. A aglomeração de pessoas, a precariedade elétrica e a falta de manutenção tornam esses espaços focos de risco iminente. A NR 31, que regulamenta a segurança no trabalho agrícola, exige condições mínimas de habitabilidade, mas a fiscalização é ineficaz. “Os produtores ignoram as normas porque não há punição”, denuncia um engenheiro agrônomo ouvido pela reportagem.

Jaguaré: a banalidade que mata na rotina do campo

A morte de José Albino Rosato, 56 anos, em Jaguaré, é o retrato de como a falta de atenção a detalhes pode ser letal. Em um acidente aparentemente simples — uma queda de três degraus enquanto abastecia um secador de pimenta —, o produtor rural sofreu um traumatismo craniano grave. Após seis dias de internação, foi declarada a morte encefálica. A cena é comum em muitas propriedades: escadas sem proteção lateral, superfícies escorregadias e equipamentos sem manutenção adequada.

Especialistas em segurança do trabalho rural destacam que acidentes como esse poderiam ser evitados com medidas básicas, como a instalação de grades de proteção nas escadas e pisos antiderrapantes nos secadores. “A cultura do ‘sempre foi assim’ precisa acabar. O campo não pode ser um local onde a morte é aceita como parte do processo”, afirma a engenheira de segurança Marina Oliveira, que atua em auditorias na região.

O que diz a lei e por que ela não é cumprida

A Norma Regulamentadora 31 (NR 31) estabelece diretrizes claras para a segurança no trabalho agrícola, incluindo normas para alojamentos, uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e manutenção de máquinas. No entanto, a fiscalização é esporádica e, quando ocorre, as multas são irrisórias frente aos lucros do agronegócio. “As empresas preferem pagar a multa do que investir em segurança”, comenta um fiscal do Ministério do Trabalho, que pediu anonimato.

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) revelam que, nos últimos cinco anos, mais de 200 trabalhadores rurais morreram em acidentes no Espírito Santo. A maioria dos casos envolve quedas, eletrocussões e incêndios. “O Estado precisa ser mais rigoroso. Não adianta apenas fiscalizar; é necessário punir exemplarmente quem descumpre as normas”, defende o deputado estadual Paulo Henrique, autor de um projeto que visa aumentar as penas para negligência em acidentes agrícolas.

O custo da insegurança: além das vidas, prejuízos produtivos e imagem

As mortes não afetam apenas as famílias das vítimas. Para o agronegócio capixaba, a falta de segurança gera prejuízos econômicos e mancha a imagem do setor. Com a safra de café e pimenta já comprometida, produtores enfrentam dificuldades para contratar mão de obra qualificada. “Ninguém quer trabalhar em um local onde corre risco de vida. Isso afeta a produtividade”, explica o presidente da Federação da Agricultura do Espírito Santo (FAES).

Além disso, empresas que não cumprem as normas de segurança enfrentam boicotes de compradores internacionais, que cada vez mais exigem certificações de responsabilidade social. “O mercado não perdoa mais descasos. Se um produtor não garante a segurança de seus trabalhadores, ele perde contratos”, alerta a consultora em agronegócios Fernanda Souza.

É possível mudar o cenário? Especialistas apontam caminhos

A solução, segundo especialistas, passa por três frentes: fiscalização efetiva, conscientização dos trabalhadores e investimento em tecnologia. “As fazendas precisam adotar sistemas de monitoramento de risco, como sensores de gás e alarmes de incêndio. É um custo, mas é menor do que uma vida”, argumenta o engenheiro agrícola Eduardo Mendes.

Já para os trabalhadores, a educação é fundamental. Campanhas de conscientização sobre o uso de EPIs, como luvas, botas e óculos de proteção, podem reduzir acidentes. “Muitos não usam os equipamentos porque acham incômodos, mas a falta de proteção pode custar caro”, destaca a técnica em segurança do trabalho Carla Lima.

O Espírito Santo não pode mais fechar os olhos para a tragédia que se repete ano após ano. A segurança no campo não é uma opção, mas uma obrigação. Enquanto não houver mudanças estruturais, a colheita continuará a ser regada com lágrimas e sangue de famílias que, além de perderem seus entes queridos, vêem seu sustento ameaçado pela negligência alheia.

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