O Boletim do Leite do Cepea/Esalq-USP, divulgado nesta semana, escancara a crise que assola o setor lácteo brasileiro em 2026. Com uma oferta de leite no campo reduzida e a disputa por matéria-prima cada vez mais acirrada entre indústrias, os preços ao produtor atingiram patamares históricos: a Média Brasil fechou fevereiro a R$ 2,1464 por litro, alta de 5,2% em apenas um mês, e março registrou novo avanço, acumulando mais de 10% de valorização desde o início do ano.
Menor oferta no campo: sazonalidade e cautela dos produtores alimentam a alta
Segundo os pesquisadores do Cepea, a redução na captação de leite decorre de dois fatores principais: a sazonalidade natural da produção — típica dos meses de outono, quando as pastagens perdem produtividade — e a retração dos investimentos por parte dos pecuaristas. Medo de endividamento e incertezas econômicas levaram muitos a segurar a expansão de rebanhos e a modernização das propriedades, agravando a escassez de matéria-prima.
Derivados também sobem: UHT e mussarela lideram a valorização
Não é apenas o leite in natura que sofre com a pressão. O leite UHT e o queijo muçarela — produtos-chave no cardápio do brasileiro — registraram alta expressiva nas negociações entre indústrias e atacado paulista. A necessidade de recompor estoques, aliada à menor disponibilidade de leite cru, impulsionou os preços, embora ainda permaneçam abaixo dos patamares de 2025 em termos reais, descontada a inflação acumulada no período.
Custos em alta: margens do produtor encolhem apesar dos preços melhores
Enquanto os preços do leite ensaiam recuperação, os custos de produção não param de subir. O Custo Operacional Efetivo (COE) das propriedades acumula alta superior a 2% no primeiro trimestre de 2026, puxado principalmente pelo aumento das despesas com adubos, corretivos agrícolas e operações de campo. Mesmo com relativa estabilidade no preço da ração em alguns estados, o saldo final para os pecuaristas segue apertado, reduzindo parte dos ganhos obtidos com a valorização do leite.
Déficit comercial explode: importações do Mercosul batem recorde e sufocam o setor
Um dos pontos mais críticos do boletim é o crescimento vertiginoso das importações de lácteos. Dados analisados pelo Cepea revelam que as compras externas — especialmente de produtos vindos do Uruguai e Argentina — avançaram em ritmo superior às exportações brasileiras, ampliando o déficit da balança comercial do setor em 2026. Pesquisadores alertam que, sem medidas para conter a entrada de produtos estrangeiros ou estimular a produção local, o desequilíbrio comercial tende a piorar, pressionando ainda mais os preços internos.
O que esperar para os próximos meses?
Com a safra de outono já em andamento e a expectativa de retomada gradual do crescimento da produção a partir do inverno, o Cepea projeta que os preços ao produtor podem estabilizar-se ou até recuar levemente nos próximos meses. No entanto, a dependência das importações e os custos estruturais da pecuária leiteira — como energia, mão de obra e insumos — devem continuar pressionando o setor. Para os consumidores, a perspectiva é de manutenção dos preços elevados nos derivados, enquanto os produtores enfrentam uma luta diária para manter suas margens.
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