A gênese de uma paixão: quando o campo encontra o design
Bruno Mantovani não começou sua carreira desenhando botas para os ícones do sertanejo ou para os reis do agro brasileiro. Sua jornada começou em 2004, nos confins de sua oficina em Belo Horizonte (MG), movida por uma simples frustração: a incapacidade de encontrar botas que unissem estilo, conforto e a essência do universo western que ele tanto amava. Filho de uma família imersa no mundo rural — seu avô era pecuarista e seu pai, um entusiasta de rodeios — Mantovani carregava desde criança a paixão por cavalos, laços e botas de couro. “Eu sempre gostei muito de estilo western, mas não encontrava nada que me agradasse. Então, em 2004, decidi criar minhas próprias botas”, relembra o designer.
Da oficina mineira ao reconhecimento internacional
A decisão de se mudar para Nova York em 2006 não foi apenas uma troca de cidade, mas um divisor de águas. Lá, Mantovani percebeu que o mercado de botas country nos EUA era dominado por marcas genéricas, sem identidade ou exclusividade. Foi nesse momento que ele identificou uma lacuna: a falta de um produto que unisse a tradição do cowboy brasileiro ao requinte do design contemporâneo. “Eu vi que havia espaço para algo diferente. As pessoas queriam botas que não fossem apenas funcionais, mas que também contassem uma história”, explica. Seu primeiro grande desafio foi adaptar as técnicas artesanais brasileiras ao gosto internacional, sem perder a essência country que o definia. Em menos de uma década, sua marca, inicialmente um hobby, tornou-se um fenômeno.
O sertanejo como porta-voz: quando a música encontrou o couro
A virada definitiva veio quando os artistas sertanejos começaram a usar suas criações. Tudo começou de forma orgânica: Gusttavo Lima, um dos maiores nomes do gênero, calçou um par de botas Mantovani em um show e a repercussão foi imediata. “Foi incrível. De repente, todo mundo queria saber quem fazia aquelas botas. Comecei a receber ligações de outros cantores, empresários e até de pecuaristas”, conta Mantovani. Hoje, sua clientela é um Who’s Who do sertanejo e do agro: Zezé Di Camargo, Luciano, Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, César Menotti & Fabiano, Eduardo Costa e Murilo Huff são apenas alguns dos nomes que vestem suas criações. “80% das minhas vendas hoje são para cantores sertanejos. Eles não só usam, como também indicam para seus amigos e colegas”, revela.
A magia por trás das botas: entre a tradição e a inovação
O sucesso de Mantovani não se resume a um design atraente. Cada par de bota é resultado de um processo meticuloso, que pode levar até 40 dias para ser concluído. O couro é selecionado a dedo, vindo de fornecedores especializados em curtumes de alta qualidade, e o processo de costura é 100% artesanal. “Nós usamos técnicas que são passadas de geração em geração. Não adianta ter o melhor couro se a mão de obra não for impecável”, destaca. Além disso, a marca investe em personalização: clientes podem escolher desde o tipo de couro até detalhes como bordados e cores, garantindo exclusividade. “Cada bota é única. Não existem duas iguais”, afirma o designer.
O agro como pilar: quando o luxo veste o campo
Mas Mantovani não se limitou ao universo sertanejo. Sua marca também conquistou o agronegócio, se tornando sinônimo de status entre pecuaristas, empresários rurais e frequentadores de leilões de gado. A presença em eventos como a Expointer, a AgroBento e a Cavalgada de Barretos consolidou sua posição como uma das marcas mais desejadas nesse nicho. “O pessoal do agro gosta de coisas bem feitas. Eles entendem de qualidade e valorizam o trabalho artesanal”, explica. Para Mantovani, essa conexão não é mera coincidência: “Desde criança, eu cresci ouvindo histórias de rodeios e vendo meu avô negociando gado. Faz parte do meu DNA”
Os desafios de construir um império no Brasil
Apesar do sucesso, a trajetória de Mantovani não foi isenta de obstáculos. No início, muitos duvidavam que uma marca brasileira pudesse competir com os gigantes internacionais do segmento. “As pessoas achavam que só gringos sabiam fazer botas western. Mas eu sempre soube que tínhamos potencial”, lembra. Outro desafio foi a logística: produzir no Brasil e competir com preços internacionais. “Aqui, a mão de obra é mais cara e os impostos são altos. Mas optamos por manter nossa produção 100% nacional. É um diferencial”, defende. Hoje, a marca exporta para países como Estados Unidos, Austrália e Emirados Árabes, mas mantém sua fábrica em Minas Gerais, empregando dezenas de artesãos.
O legado de Bruno Mantovani: muito além das botas
Com mais de duas décadas de história, Bruno Mantovani não é apenas um designer de botas — é um símbolo de como a paixão pode transformar sonhos em realidade. Sua trajetória inspira não só quem deseja entrar no mundo da moda, mas também aqueles que buscam unir tradição e inovação. “Eu queria mostrar que é possível fazer algo brasileiro com qualidade internacional. E acho que conseguimos”, orgulha-se. Para o futuro, Mantovani planeja expandir sua linha de produtos, incluindo acessórios como cintos e chapéus, além de consolidar sua presença no mercado internacional. “Ainda temos muito chão pela frente, mas já conquistamos nosso lugar. E isso, para mim, é o mais importante”, conclui.
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