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Economia

Cooperativismo 2.0: Como Mato Grosso inova para quebrar o gargalo de máquinas agrícolas

Roberto Neves
20 de maio de 2026 às 22:27
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Cooperativismo 2.0: Como Mato Grosso inova para quebrar o gargalo de máquinas agrícolas
Divulgação / Imagem Automática

A crise de rentabilidade que assola o agronegócio brasileiro, agravada pela escalada dos preços de máquinas agrícolas durante e após a pandemia, encontrou uma resposta inovadora no Mato Grosso. A Cooprosoja, cooperativa que já reúne mais de 1,3 mil cooperados em 93 municípios do estado, propõe um modelo de compra coletiva sem transferir riscos financeiros. Enquanto grandes grupos negociam volumes milionários com fabricantes, os médios e pequenos produtores — historicamente alijados dessa vantagem — agora podem acessar condições similares sem precisar se submeter a contratos de terceiros.

O paradoxo do ‘poder de barganha’ no agronegócio

O problema não é novo, mas se intensificou nos últimos anos. Fernando Cadore, presidente da Cooprosoja, lembra que a pandemia não apenas interrompeu cadeias produtivas como também aumentou as margens de intermediários, especialmente no setor de máquinas e insumos. “Os grandes grupos continuaram pagando preços menores em função do volume. Nós percebemos que precisávamos nos unir para formar escala e buscar viabilidade”, afirmou em entrevista exclusiva.

O modelo tradicional de cooperativas, entretanto, nem sempre atende às necessidades de pequeno e médio produtor. Muitas entidades acabam centralizando faturamentos e assumindo responsabilidades financeiras que extrapolam a função de intermediação. A Cooprosoja inverte essa lógica: atua como uma ponte entre fabricante e produtor, sem jamais se tornar a titular da operação. O faturamento permanece no CPF de cada cooperado, garantindo segurança jurídica e evitando que um produtor responda por dívidas de outro.

Segurança jurídica e escala sem burocracia

Cadore resume a proposta da cooperativa em uma frase: “O foco é deixar a renda dentro da porteira”. Para ilustrar, ele cita o exemplo de um produtor de Sorriso (MT) que, ao associar-se à Cooprosoja, conseguiu negociar a compra de um trator com 20% de desconto em relação ao preço de mercado — sem precisar recorrer a financiamentos bancários ou garantir a operação com bens próprios. “Em um estado de dimensões continentais como o Mato Grosso, isso dá segurança para quem entra. Ele não terá responsabilidade financeira sobre a compra de outro produtor”, explica.

A cooperativa, que nasceu oficialmente em 2023 mas já acumula resultados práticos, trabalha com três eixos principais: negociação centralizada de máquinas, insumos e peças; acesso a linhas de crédito exclusivas; e capacitação gerencial para que os associados otimizem seus custos. Segundo dados internos, a Cooprosoja já intermediou mais de R$ 50 milhões em compras desde sua fundação, com ticket médio de R$ 350 mil por máquina negociada.

Um novo capítulo para o cooperativismo agrícola

O modelo da Cooprosoja representa uma evolução do cooperativismo tradicional, que historicamente se concentra em exportação ou processamento de commodities. Ao focar na aquisição de ativos — e não na comercialização da produção —, a entidade se alinha a uma tendência global de cooperativas como facilitadoras de acesso a tecnologia.

Para especialistas do setor, a iniciativa pode ser replicada em outras regiões do Brasil, especialmente em estados com forte presença de médios produtores, como Paraná e Rio Grande do Sul. “O desafio agora é escalar sem perder a essência da cooperativa: o controle democrático e a transparência”, avalia o economista agrícola Marcelo Chalita, da FGV Agro. “Cooperativas que não assumem riscos alheios tendem a ter menor inadimplência e maior adesão.”

A Cooprosoja, que já negocia com gigantes como John Deere e Case IH, planeja expandir suas operações para Mato Grosso do Sul ainda este ano. Com 80% de seus associados classificados como pequenos e médios produtores, a cooperativa surge como um laboratório de inovação no agro brasileiro — onde o tamanho da porteira não define mais o poder de barganha.

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