A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou para cima sua projeção para a safra brasileira de café em 2026, anunciando um volume recorde de 66,7 milhões de sacas de 60 kg. O número representa um incremento de cerca de 500 mil sacas em relação à estimativa divulgada em fevereiro deste ano, consolidando as expectativas de um ano de superávit no setor.
O motor por trás do crescimento: bem mais do que clima favorável
A estatal atribui o salto de 18% na produção anual a um tripé de fatores decisivos. O primeiro deles é o ciclo de bienalidade positiva, fenômeno natural que alterna anos de alta e baixa produtividade nas lavouras de arábica, principal variedade cultivada no país. Em 2026, o ciclo estará em sua fase de alta, com plantas mais vigorosas e maior frutificação.
Além disso, novas áreas entram em produção: a área total destinada à cafeicultura deve expandir 3,9%, totalizando 2,34 milhões de hectares — um recorde histórico. A incorporação de terras anteriormente não cultivadas, especialmente em estados como Minas Gerais e Espírito Santo, contribui para o aumento da capacidade produtiva nacional.
As condições climáticas mais favoráveis também desempenham papel crucial. Após anos de adversidades como secas e geadas, a normalização das chuvas na principal região produtora — o Cerrado mineiro — e a ausência de eventos extremos permitem que as plantas expressem todo o seu potencial genético. A produtividade média das lavouras, por sua vez, deve atingir 34,4 sacas por hectare, um patamar superior à média histórica.
Divisão por variedades: arábica lidera, mas robusta ganha espaço
O café arábica, responsável por cerca de 69% da produção nacional, será o grande protagonista da safra. A Conab projeta 45,8 milhões de sacas, enquanto os canéforas (conilon/robusta) — cultivados majoritariamente no Espírito Santo, Rondônia e Bahia — devem render 20,9 milhões de sacas. Essa distribuição reflete a diversificação dos plantios brasileiros, com expansão acelerada do robusta em regiões antes dominadas pelo arábica, impulsionada pela demanda global por cafés de menor custo e blends mais acessíveis.
O que muda para o mercado e os produtores?
O anúncio da Conab não é apenas um dado estatístico: ele traz implicações imediatas para três elos da cadeia. Para os produtores rurais, a expectativa de maior rentabilidade pode acelerar investimentos em tecnificação e sustentabilidade, ainda que os custos de produção permaneçam elevados devido ao uso intensivo de insumos. A indústria de torrefação se prepara para um cenário de estoques mais folgados, o que pode pressionar os preços internacionais do café no curto prazo. Já os exportadores brasileiros ganham fôlego para disputar mercados como Estados Unidos e Europa, onde a demanda por cafés de qualidade premium segue em alta.
Por outro lado, a bienalidade positiva é um lembrete de que o ciclo pode se inverter em 2027, quando a produção tende a cair novamente. Especialistas ouvidos pela Reuters destacam a necessidade de planejamento estratégico por parte dos cafeicultores, que devem aproveitar os anos de bonança para construir reservas financeiras e diversificar suas lavouras, reduzindo a dependência de um único produto.
Brasil consolida liderança global sob olhares atentos
Com a projeção da Conab, o Brasil reforça sua posição como maior produtor e exportador mundial de café, respondendo por cerca de 35% da oferta global. O país já domina o mercado de arábica, mas o crescimento do robusta ameaça a hegemonia de nações como Vietnã e Indonésia. A política agrícola brasileira, no entanto, segue como um ponto de atenção: enquanto a Conab aponta para um futuro promissor, setores ligados à reforma agrária e ao trabalho rural cobram mais investimentos em sustentabilidade e direitos trabalhistas. O debate ganhou novo fôlego nesta semana, com a tramitação no Senado de um projeto que visa modernizar as leis do trabalho no campo — tema que divide opiniões entre modernizadores e defensores de garantias históricas.
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