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Economia

Café em crise: estoques mundiais minguados e safra brasileira em xeque elevam preços e incertezas globais

Roberto Neves
22 de maio de 2026 às 11:38
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Café em crise: estoques mundiais minguados e safra brasileira em xeque elevam preços e incertezas globais
Divulgação / Imagem Automática

O mundo do café está em estado de alerta. Nos próximos dois meses, as cotações da commodity devem oscilar globalmente, pressionadas por um cenário de escassez histórica e incertezas logísticas. Enquanto o Brasil, maior produtor mundial, se prepara para liberar sua nova colheita, o mercado opera em modo de espera — e cada dia de atraso na distribuição dos grãos nas bolsas internacionais multiplica as especulações e os riscos para países dependentes da importação.

A tempestade perfeita: estoques deprimidos, clima hostil e custos logísticos em disparada

A fragilidade da oferta global foi o tema central do Seminário Nacional do Café, onde lideranças do setor destacaram três fatores que sustentam os preços em patamares elevados: estoques mundiais severamente reduzidos, a ameaça do fenômeno El Niño — que prejudica safras na América Latina e África — e o encarecimento do frete marítimo, agravado pela crise no Canal do Panamá e conflitos no Mar Vermelho.

Na Bolsa de Nova York (ICE Futures), os contratos futuros já refletem essa tensão. O vencimento para julho do café arábica subiu 1,9% na última semana, fechando a US$ 2,7340 por libra-peso, enquanto os contratos de setembro avançaram 1,92%, atingindo US$ 2,6550. “Até que os grãos brasileiros cheguem aos terminais marítimos, as cotações não terão um rumo definido”, alerta Alex Perk, diretor de café para a Europa da Comexim Trade Group. “Mesmo com a previsão de uma safra robusta, os primeiros lotes serão prioritariamente usados para recompor estoques locais, não para equilibrar o mercado global.”

Conab vs. Comexim: quem está certo na guerra das projeções?

A divergência entre as estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e da Comexim Trade Group — dois dos principais órgãos de referência do setor — só agrava a instabilidade. Enquanto a Comexim projeta uma safra de 71 milhões de sacas de 60 kg para 2024 (com 48 milhões de arábica e 23 milhões de conilon/robusta), a Conab calcula um volume menor: 66,7 milhões de sacas (45,8 milhões de arábica e 20,9 milhões de robusta).

“A margem de erro é mínima”, explica um analista ouvido pela reportagem. “Se a safra for menor do que o esperado, os preços podem disparar ainda mais. Se for maior, mas com qualidade inferior devido ao clima, o impacto será similar. O mercado não perdoará nenhum deslize.” A incerteza afeta não só traders e exportadores, mas também cafeicultores, que precisam tomar decisões de plantio e venda em um ambiente de extrema volatilidade.

O que esperar do Brasil: a hora da virada (ou da decepção)

O Brasil, responsável por cerca de 40% da produção mundial, é o grande ponto de virada neste tabuleiro. A janela de transição entre a safra velha e a nova — estimada entre 30 e 60 dias — será crítica. “Os primeiros carregamentos serão direcionados para países com estoques críticos, como Estados Unidos e União Europeia”, comenta Perk. “Isso significa que os mercados emergentes, dependentes de importações, sofrerão com a alta de preços e a escassez relativa.”

Enquanto isso, os custos logísticos seguem pressionando. O frete marítimo, que já subiu 20% desde o início do ano devido às rotas alternativas ao Canal do Panamá, pode piorar ainda mais se o El Niño intensificar eventos climáticos extremos no Oceano Pacífico. “Produtores menores, especialmente na África Oriental e no Vietnã, já relatam dificuldades para escoar a produção devido ao clima adverso”, destaca um relatório da Organização Internacional do Café (ICO).

Consequências para o consumidor: o preço do café no cotidiano

A escalada dos preços da commodity inevitavelmente se refletirá nos valores finais ao consumidor. Em países como os EUA, onde o café é um item cotidiano, a alta poderá acelerar a migração de marcas premium para blends mais baratos ou até mesmo para substitutos. Na Europa, tradicional mercado de cafés especiais, a pressão será ainda maior: “Cafés 100% arábica podem ficar fora do alcance de muitos consumidores”, prevê um executivo de uma grande torrefadora europeia.

No Brasil, apesar de ser produtor, o impacto não será menor. “O preço interno já subiu 15% nos últimos seis meses”, revela um levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). “Se a safra brasileira não for suficiente para suprir a demanda global, o governo pode precisar acionar estoques estratégicos ou até mesmo promover importações emergenciais — o que, por sua vez, pressionaria ainda mais o câmbio e a inflação.”

Enquanto o mercado aguarda ansiosamente a colheita brasileira, uma coisa é certa: até lá, o café não será apenas uma bebida, mas um termômetro da saúde econômica global.

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