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Economia

Brasil pede à UE prazo até 2029 para se adequar a regras europeias de antimicrobianos na carne bovina

Roberto Neves
21 de maio de 2026 às 14:36
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Brasil pede à UE prazo até 2029 para se adequar a regras europeias de antimicrobianos na carne bovina
Divulgação / Imagem Automática

O governo brasileiro formalizou nesta semana um pedido à União Europeia (UE) para um período de transição na aplicação de novas regras sobre o uso de antimicrobianos na pecuária, com foco exclusivo na cadeia de carne bovina. A medida busca evitar um colapso nas exportações do setor, um dos principais mercados para o Brasil, diante da iminente suspensão europeia de produtos brasileiros por descumprimento de normas sanitárias.

A estratégia brasileira: adequação escalonada até 2029

A proposta apresentada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) prevê um cronograma de adaptação progressiva. Inicialmente, os frigoríficos exportadores deveriam comprovar que os bovinos não receberam antimicrobianos nos nove meses anteriores ao abate — uma exigência viável para animais criados em confinamento. A restrição total ao uso de antimicrobianos ao longo de toda a vida do animal, entretanto, só passaria a vigorar em 2029, dando tempo para que o setor se reorganize.

“A complexidade da cadeia bovina brasileira exige um tratamento diferenciado. Enquanto outras proteínas animais, como aves, têm ciclos curtos e maior controle, a bovinocultura envolve múltiplas etapas e propriedade rurais, o que dificulta a rastreabilidade integral”, afirmou um técnico do Mapa ouvido pela reportagem.

O impasse com a União Europeia e o risco comercial

A crise diplomática entre Brasília e Bruxelas ganhou contornos mais graves após a UE retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal em maio deste ano. A justificativa foi o descumprimento de normas europeias de segurança sanitária, especialmente no que tange ao uso de antimicrobianos na produção pecuária. Técnicos do Mapa admitem que os setores de aves, ovos e mel enfrentam desafios menores, graças a ciclos produtivos curtos e modelos integrados de produção. O problema central, no entanto, está na cadeia de carne bovina, onde a falta de rastreabilidade integral expõe o Brasil a sanções comerciais.

“A legislação europeia, já regulamentada desde 2023, estabelece o dia 3 de setembro de 2026 como o prazo final para adequação internacional. Se não houver flexibilização, o Brasil pode perder acesso a um mercado que consome 20% das exportações de carne bovina brasileira”, alertou um analista de comércio exterior.

A batalha logística: por que a bovinocultura é o calcanhar de Aquiles?

Diferente da avicultura, onde um frango leva cerca de 45 dias para ser abatido e todo o processo é controlado por integradoras, a bovinocultura brasileira é marcada por uma cadeia fragmentada. Um boi pode passar por até três propriedades diferentes — cria, recria e engorda — antes de ser levado ao abate. Embora alguns frigoríficos já possuam sistemas avançados de rastreamento, o volume de animais com histórico documentado de ponta a ponta ainda é reduzido. Essa lacuna torna a implementação imediata das normas europeias praticamente inviável.

“A proposta de transição é uma tentativa de ganhar tempo sem prejudicar as exportações. Sem ela, o setor sofreria um apagão comercial em um dos seus principais mercados”, avaliou um executivo do setor entrevistado.

O que está em jogo e o que vem pela frente

A negociação com a União Europeia será decisiva para o futuro das exportações brasileiras de carne bovina. Caso o pedido de prorrogação seja recusado, o Brasil terá de correr contra o tempo para adequar toda a cadeia produtiva em menos de dois anos — um desafio logístico e financeiro considerável. Enquanto isso, o Mapa trabalha em um plano de contingência que inclui a capacitação de pecuaristas, a expansão de sistemas de rastreamento e a negociação de acordos bilaterais com países europeus.

“Não se trata apenas de cumprir uma norma. É sobre preservar um setor que movimenta R$ 300 bilhões por ano e sustenta milhões de empregos no campo”, destacou uma autoridade do governo, que pediu anonimato para tratar do tema sensível.

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