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AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro

Roberto Neves
22 de maio de 2026 às 14:25
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AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro
Divulgação / Imagem Automática

Luciano Lewandowski conhece o poder dos números como poucos. Durante anos, ele geriu bilhões em fundos de investimento nos escritórios refrigerados da Faria Lima, onde os gráficos de rentabilidade eram projetados em telões de última geração. Mas foi no interior empoeirado, onde o solo cansado de décadas de exploração mal consegue sustentar um pé de soja, que ele enxergou o verdadeiro filão: terras baratas que poderiam ser transformadas em ativos milionários com o toque certo de engenharia financeira e agronômica.

A AGBI, gestora fundada por Lewandowski, tornou-se a prova viva de que o Brasil agrário pode ser tão rentável quanto as maiores bolsas de valores. Em vez de apostar em terras já consolidadas, a empresa especializou-se em adquirir pastagens degradadas — aquelas onde o gado mal consegue sobreviver e o solo está tão empobrecido que nem adubo tradicional funciona mais. Com um modelo exclusivo de equity, a AGBI compra essas áreas por preços de “pecuária” (muito abaixo do valor de mercado para agricultura moderna) e aplica uma estratégia agressiva de recuperação: correção química agressiva, plantio de culturas de alto retorno e, em seguida, revenda pelo valor de “soja” ou até mesmo de áreas destinadas a projetos de reflorestamento ou bioenergia.

Do papel à realidade: como uma pastagem vira uma mina de ouro em três anos

O processo começa com uma análise criteriosa de localização. A AGBI não busca terras aleatórias: prioriza regiões com clima favorável, logística de escoamento eficiente e, principalmente, solo que responda bem à recuperação. “Não adianta comprar uma fazenda degradada no meio do nada, por mais barata que seja”, explica Lewandowski em entrevista exclusiva. “O segredo está em identificar áreas onde, com investimentos relativamente baixos — mas altamente técnicos —, podemos multiplicar o valor da terra em poucos ciclos produtivos.”

O passo seguinte é o que Lewandowski chama de “engenharia reversa do solo”: aplicação massiva de calcário e gesso para reequilibrar o pH, seguido de plantio de culturas de cobertura que sequestram carbono e melhoram a estrutura do solo. Em seguida, vem a lavoura principal — geralmente soja ou milho, dependendo da região. Em dois ou três anos, a área que antes produzia menos de 2.000 kg de carne por hectare passa a gerar 4.000 kg de grãos, com potencial de venda pelo dobro ou triplo do preço de compra.

Os números comprovam a tese. Enquanto os dois primeiros fundos da AGBI (lançados entre 2013 e 2017) levaram quatro anos para captar R$ 60 milhões, o Fundo IV atingiu a mesma marca em apenas duas semanas. “Isso mostra que o mercado finalmente entendeu que o valor real da terra brasileira não está na sua extensão, mas na sua capacidade de transformação”, analisa o executivo. Para 2024, a meta é chegar ao volume de R$ 500 milhões em ativos sob gestão, com previsão de mais três fundos até 2026.

Oportunidade ou bolha? O risco por trás de um modelo que vende sonhos de lucro rápido

Críticos do modelo apontam que a estratégia da AGBI depende de condições ideais — clima favorável, preços estáveis das commodities e acesso a crédito barato — para funcionar. “Não é um negócio para amadores”, admite Lewandowski. “Exige capital paciente, gestão técnica impecável e, acima de tudo, timing. Comprar na alta do mercado ou vender na baixa pode transformar o que parece um acerto em um desastre.”

Outro ponto de atenção é o impacto ambiental. Embora a AGBI se apresente como uma solução para terras degradadas, ambientalistas questionam se a recuperação agressiva de solos não pode, em alguns casos, agravar problemas como a erosão ou a contaminação por agroquímicos. “A degradação não é apenas uma questão de prejuízo econômico, mas também ambiental”, alerta a doutora em agronomia Maria Fernanda Diniz, da Universidade Federal de Viçosa. “Recuperar uma pastagem degradada não pode ser sinônimo de esgotar ainda mais o solo.”

Lewandowski rebate as críticas com dados: segundo ele, 60% das áreas recuperadas pela AGBI são convertidas em sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta), que aumentam a biodiversidade local. Além disso, a empresa afirma que mais de 70% dos seus investimentos já foram auditados por órgãos ambientais, com selos de sustentabilidade como o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e o Protocolo de Sustentabilidade do Agronegócio (PSA).

O futuro do agro brasileiro passa pela terra que ninguém quer

Se a AGBI está certa, o Brasil tem nas mãos uma solução para dois problemas simultâneos: a crise de produtividade das pastagens — que já ocupam 25% do território nacional — e a necessidade de atrair capital estrangeiro para o agro, cada vez mais cobiçado por fundos de private equity e investidores institucionais. “O agro não é mais o setor do improviso”, diz Lewandowski. “Hoje, é um laboratório de inovação financeira, onde a terra é tratada como um ativo líquido, negociado em ciclos cada vez mais curtos.”

Para os cotistas da AGBI, o apelo é claro: trata-se de um investimento tangível, ancorado em ativos reais que, diferentemente das ações ou criptomoedas, não desaparecem em uma crise. Nos últimos cinco anos, os fundos da gestora registraram rentabilidade média de 25% ao ano, com picos de 35% em anos de safra excepcional. “Estamos falando de um modelo que não é especulativo, mas sim de engenharia de valor”, resume Lewandowski. “E nesse jogo, quem coloca a botina no chão e a planilha no bolso sai na frente.”

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