A importância da amizade cívica para o dia seguinte à eleição
Em tempos de polarização, a economista Ana Carla Abrão resgata o conceito aristotélico de amizade cívica para defender a necessidade de reconhecer o outro como concidadão, mesmo diante de divergências políticas profundas, e a importância de focar no futuro comum do país.

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Há mais de dois mil anos, Aristóteles já apontava que a sustentação de qualquer comunidade política vai além de leis e instituições. Para o filósofo grego, a existência de uma cidade dependia de uma forma de amizade entre seus cidadãos, não aquela baseada em afeto ou intimidade, mas sim a amizade cívica. Essa concepção se fundamenta no reconhecimento mútuo de um destino compartilhado, na disposição de enxergar o outro, mesmo que pense diferente, como parte integrante do mesmo coletivo.
O reconhecimento do concidadão na divergência
Aristóteles não idealizava uma sociedade isenta de conflitos; pelo contrário, a política surge justamente da diversidade de opiniões. A amizade cívica, portanto, não exige consenso ou concordância, mas sim a capacidade de reconhecer no divergente um concidadão. Essa relação se estabelece não pela identidade de ideias, mas pelo compartilhamento do mesmo país e, crucialmente, do mesmo futuro.
Da divergência política à divisão moral
Atualmente, o debate político transcendeu as divergências sobre temas como impostos, segurança ou o tamanho do Estado. A tendência observada é a de enxergar quem pensa diferente como alguém moralmente distinto, transformando a política de um espaço de troca para um palco de incômodo e marcador de identidade. A recente dinâmica eleitoral, marcada pela discussão de anti-candidatos, escândalos e alianças questionáveis, levou muitos a escolherem lados em vez de ideias, chegando ao dia da eleição com uma decisão baseada mais no que não queriam do que no que almejavam.
O país permanece: a urgência da segunda-feira
Em meio à desilusão, a atenção se volta excessivamente para o domingo eleitoral, negligenciando a importância da segunda-feira. Independentemente do resultado, o país continuará existindo com seus problemas e com as mesmas pessoas que o compõem. A amizade cívica, neste contexto, deixa de ser um conceito abstrato para se tornar uma exigência democrática. Quem vence não adquire propriedade do que é comum, assim como quem perde não deixa de pertencer. Maiorias são transitórias, governos passam, mas o país permanece, pertencendo a todos.
Concórdia: a capacidade de querer algo juntos
Uma democracia saudável necessita de debate, oposição e indignação, com cidadãos firmes em suas convicções. Contudo, ela não pode prescindir da disposição de aplicar aos outros os mesmos padrões que se espera para si, defender instituições mesmo quando suas decisões desagradam e não desejar o fracasso do país como forma de provar um ponto. A homonoia aristotélica, traduzida como concórdia, sugere a capacidade de querer algumas coisas em comum, mesmo sem pensar igual. A pergunta fundamental, antes mesmo de uma escolha eleitoral, é: o que ainda somos capazes de querer juntos? Instituições que funcionem, integridade no uso do dinheiro público, liberdade para quem pensa diferente e regras que valham para todos são anseios compartilhados que transcendem as diferenças políticas.
Coproprietários de uma construção coletiva
Antes de sermos eleitores de candidatos distintos, somos coproprietários de uma construção coletiva. O dinheiro público, as regras, a liberdade e as instituições são de todos nós. Quando elas falham, a responsabilidade de reconstrução também é coletiva. No dia da eleição, cada eleitor estará sozinho em sua decisão. Contudo, ao sairmos da cabine, todos compartilharemos o mesmo país, que, na segunda-feira, continuará sendo de todos.
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