El Niño forte acende alerta no Cerrado e aumenta riscos para produtores
O aquecimento no Pacífico Equatorial eleva o risco de irregularidade nas chuvas, veranicos prolongados e atrasos na safrinha. Uso do Zarc, manejo conservacionista e planejamento das semeaduras ajudam a reduzir perdas.

Divulgação
Aquecimento no Pacífico sustenta cenário de risco
O Cerrado deve acompanhar com atenção a formação de um El Niño de alta intensidade. O fenômeno pode mudar o balanço hídrico em áreas produtoras de grãos, alterar o início da estação chuvosa e aumentar a frequência de veranicos durante fases críticas das lavouras. Para os produtores, o principal desafio será transformar um cenário climático instável em decisões agrícolas mais previsíveis.
O El Niño-Oscilação Sul, conhecido como ENOS, é um fenômeno natural que alterna fases quentes, frias e neutras no Oceano Pacífico Equatorial. As mudanças na temperatura do mar interferem nos ventos, na formação de nuvens e no regime de chuvas em diferentes regiões do planeta. Eventos de El Niño são observados quando a anomalia média da temperatura da superfície marítima fica pelo menos 0,5 °C acima do histórico por cinco meses consecutivos.
Projeções indicam aquecimento acima da média
Dados oceanográficos recentes mostram aquecimento expressivo no Pacífico. O Índice Oceânico Niño atingiu +1,4 °C em junho de 2026, no segundo mês consecutivo acima de +0,5 °C. Projeções climáticas indicam a possibilidade de anomalias superiores a +2,5 °C no Pacífico tropical, o que caracterizaria um evento de grande magnitude e exigiria redobrado cuidado no campo.
Esse aquecimento ocorre em um contexto global de temperaturas elevadas e de eventos extremos mais frequentes. No Brasil, a preocupação é maior nas regiões agrícolas onde o calendário das lavouras depende diretamente da regularidade das chuvas, caso de grandes áreas do Cerrado em Goiás, Mato Grosso, Bahia e Distrito Federal.
Impactos podem atingir soja e safrinha
Um dos primeiros efeitos possíveis é a irregularidade no início da estação chuvosa. Chuvas isoladas no começo da janela de semeadura podem induzir o produtor a plantar antes da estabilização do regime hídrico. Se houver estiagem nos dias seguintes, a emergência e o estabelecimento das plantas podem ser comprometidos, reduzindo o stand e afetando o potencial produtivo.
Outro risco é a ocorrência de veranicos prolongados durante o desenvolvimento vegetativo ou o enchimento dos grãos. A falta temporária de água eleva o estresse das plantas e pode causar perdas significativas, especialmente quando a lavoura já enfrenta limitações de solo, baixa retenção de umidade ou escolha inadequada da cultivar.
O atraso na semeadura da cultura principal também pode estreitar a janela para milho, sorgo ou algodão safrinha. Com o plantio mais tardio, a segunda safra avança para o outono e o inverno com maior exposição à seca. O problema tende a ser mais grave nas regiões em que o período favorável ao desenvolvimento das culturas já é naturalmente menor.
Zarc ajuda a transformar incerteza em planejamento
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o Zarc, é uma das principais ferramentas para orientar essas decisões. Desenvolvido pela Embrapa e por instituições parceiras, sob coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária, o sistema combina dados meteorológicos históricos, características dos solos e informações ecofisiológicas de diversas culturas.
Para cada município, o Zarc indica épocas de semeadura, tipos de solo e cultivares associados a diferentes níveis de risco de perda. Ao seguir essas recomendações, o produtor pode evitar datas com maior probabilidade de estiagem e adequar o plantio às condições climáticas da propriedade. A ferramenta também é referência para crédito agrícola e seguro rural.
Manejo conservacionista reduz vulnerabilidade
Além do zoneamento, práticas de manejo podem aumentar a resiliência das lavouras. A manutenção de palhada, o plantio direto bem conduzido, a rotação de culturas e a proteção da superfície do solo ajudam a conservar a umidade e reduzem os efeitos de períodos secos. Solos corrigidos e com sistemas radiculares bem desenvolvidos também conseguem aproveitar melhor a água disponível.
O produtor deve evitar decisões baseadas apenas na primeira chuva e acompanhar a previsão do tempo, a umidade do solo e a regularidade da estação chuvosa. A escolha de cultivares adaptadas ao ciclo disponível, o respeito às datas indicadas pelo Zarc e o planejamento da safrinha são medidas essenciais para diminuir perdas.
O El Niño não determina isoladamente o resultado de uma safra, mas aumenta a necessidade de gestão técnica. Em um cenário de maior volatilidade climática, planejamento antecipado, monitoramento constante e manejo conservacionista serão decisivos para proteger a produtividade e o capital investido nas lavouras do Cerrado.
Newsletter
Escolha seus assuntos favoritos e receba em primeira mão as notícias do dia.








