Aliança pelo futuro: como agricultores e Instituto Terra restauram a Bacia do Rio Doce
O programa Terra Doce, iniciativa do Instituto Terra, tem transformado a Bacia do Rio Doce através de uma parceria inovadora com produtores rurais. Ao integrar práticas de conservação ambiental com o desenvolvimento do campo, o projeto tem plantado milhões de árvores nativas e reestabelecido ecossistemas resilientes em Minas Gerais e Espírito Santo, provando que é possível restaurar a natureza e produzir com qualidade no mesmo espaço.

Divulgação
Ver a natureza florescer novamente em áreas degradadas é uma missão que se torna grandiosa quando abraçada por muitas mãos. No coração da Bacia do Rio Doce, essa visão ganhou força por meio de uma parceria essencial: a união entre o Instituto Terra e os próprios produtores rurais. O que começou como uma iniciativa para expandir a atuação ambiental, rapidamente se transformou na certeza de que o sucesso dependeria de uma ação coletiva e engajada.
Fundado em 1998 pelo renomado fotógrafo Sebastião Salgado e pela arquiteta, curadora e ambientalista Lélia Deluiz Wanick Salgado, o Instituto Terra transformou uma antiga fazenda degradada em Aimorés (MG) em um verdadeiro laboratório de renascimento ambiental. Desde então, mais de 3,5 milhões de árvores da Mata Atlântica foram plantadas, e centenas de espécies da fauna nativa voltaram a habitar a região, provando o poder da restauração.
Do Olhos D’Água ao Terra Doce: ampliando horizontes
A partir de 2010, os fundadores decidiram levar as técnicas de restauração para além dos limites da propriedade. Assim nasceu o Programa Olhos D’Água, que mais tarde evoluiria para o Terra Doce. O novo nome já indicava o foco principal: atender a vasta e vital região da Bacia do Rio Doce, que se estende de Minas Gerais ao Espírito Santo. Essa expansão veio de um entendimento crucial, como explica Willian Nascimento de Oliveira, coordenador de Meio Ambiente do Terra Doce: “Ampliamos o horizonte do primeiro programa, antes focado apenas em recuperar nascentes. Isso veio do entendimento de que a água da nascente vem de uma área de recarga hídrica muito maior, onde a chuva cai, vai para o subterrâneo e isso reflete na nascente”.
Essa mudança de perspectiva significou multiplicar a área de restauração de 1 hectare para impressionantes 160 hectares. Para alcançar tal extensão, a parceria com as comunidades tornou-se a chave mestra, integrando conservação ambiental com desenvolvimento rural. “Entendemos que se não conseguíssemos conciliar o fator produtivo com a restauração, não conseguiríamos ampliar a escala de reflorestamento e trazer mais propriedades, principalmente as pequenas”, revelou Oliveira. O projeto passou a incluir melhorias no saneamento básico rural e o ensino de técnicas sustentáveis como as barraginhas e os cochinhos, estruturas que controlam a erosão e captam a água da chuva no solo, verdadeiramente “plantando água”. Essas ações demonstram que a produção sustentável é não apenas possível, mas promissora na região. “Não é impossível restaurar e produzir no mesmo lugar. Pelo contrário, conseguimos fazer as duas coisas, inclusive com a qualidade até maior”, destaca o coordenador.
A força da mobilização coletiva e o exemplo que inspira
O programa Terra Doce é contínuo, mas seus projetos dependem da captação de recursos financeiros. Para otimizar o alcance do desenvolvimento rural sustentável, a equipe desenvolveu o modelo de mobilização chamado Busca Ativa Coletiva. A estratégia consiste em contatar lideranças locais para entender o histórico das comunidades, principalmente no entorno de Aimorés, e, a partir delas, atrair novos participantes. Iniciar a mobilização com essas pessoas-chave torna o processo de expansão nas comunidades mais natural e eficaz. “O que nos deu condição de ter escala na mobilização foi utilizar esse método de busca ativa coletiva e transmitir a proposta do projeto aos próprios líderes”, explicou Oliveira. Uma vez engajadas, essas lideranças servem de exemplo para os vizinhos nas microbacias, multiplicando o impacto positivo. “A partir deles, chegamos aos demais membros. Os maiores sucessos foram com as associações de produtores rurais, onde conseguimos o maior número de adeptos”, afirmou.
Reflorestamento e restauração: nuances importantes
Embora frequentemente usados como sinônimos, há diferenças cruciais entre “reflorestamento” e “restauração”, segundo Willian Oliveira. No reflorestamento, o foco é o plantio de árvores sem muitos critérios ecológicos. Já a restauração visa restabelecer todo o ecossistema original da floresta, tornando-o resiliente. É uma abordagem que exige maior cuidado e complexidade. No entanto, o programa compreende as realidades do campo. “Nem todas as famílias conseguem dar manutenção na restauração nos primeiros anos. Por isso, o que era um projeto de restauração pode virar uma área de reflorestamento ao fechar o projeto, quando não conseguimos atingir indicadores ecológicos a curto e médio prazo”, explicou o coordenador. Mesmo nesses casos, o Instituto Terra garante que toda a cobertura florestal seja feita com árvores nativas, mantendo o compromisso com a biodiversidade.
O impacto do Terra Doce se estende por diversos municípios em Minas Gerais (Alvarenga, Pocrane, Santa Rita do Itueto, Conselheiro Pena, Itueta, Resplendor, Galileia, Goiabeira, Aimorés, Baixo Guandú) e Espírito Santo (Itaguaçu). A prioridade recai sobre Áreas de Preservação Permanente (APPs), que carecem de cobertura florestal. Oliveira ressalta que o ônus da regularização ambiental, muitas vezes, recai injustamente sobre os produtores rurais, quando, na verdade, é uma responsabilidade de toda a sociedade. Por isso, o programa busca arranjos com parceiros locais, incluindo prefeituras e órgãos de assistência técnica, para amenizar esse impacto. “Sabemos que são elas que deixam de fazer atividades de ganho de pão para cercar uma área, plantar árvores e cuidar de algo que beneficia a todos”, conclui, reforçando o valor inestimável da parceria com as famílias do campo.
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